Itamaraty convoca diplomata argentina para explicar passagem de Flávio por Puerto Iguazú
Encarregada de negócios foi recebida na quinta-feira, 29; chanceler Pablo Quirno nega que tenha havido pedido de explicações
O Itamaraty convocou a encarregada de negócios da Argentina em Brasília, Maria Emília Cortés, para pedir explicações sobre o papel do governo de Javier Milei na saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do país. A informação foi dada na sexta-feira, 30, por duas fontes do governo brasileiro à agência Reuters e reproduzida pela Agência Brasil.
Cortés foi recebida na noite de quinta-feira, 29, pelo diretor do Departamento de América do Sul, embaixador João Marcelo Galvão de Queiroz. Segundo uma das fontes, a conversa foi rápida. A convocação de um representante estrangeiro é, nas palavras das fontes, uma praxe diplomática para registrar desagrado com a conduta de outro governo.
Flávio chegou aos Estados Unidos na manhã de quarta-feira, 28, depois de deixar o Brasil pelo aeroporto de Puerto Iguazú, cidade argentina na fronteira, em um jato fretado pelo governo norte-americano, de acordo com a Agência Brasil. O senador perdeu o segundo turno para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo, 25. Ao viajar, descumpriu decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que o obrigava a entregar os passaportes e a permanecer no país, no âmbito de um inquérito sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Em carta divulgada na quinta-feira, o parlamentar agradeceu a ajuda de Milei. Reportagens da imprensa argentina citadas pela Agência Brasil apontam o envolvimento de integrantes do governo argentino com Flávio e a família, incluindo uma escolta da polícia aeroportuária do país até o embarque.
O que diz Buenos Aires
O chanceler argentino, Pablo Quirno, afirmou que o governo brasileiro não fez pedido de explicações. As duas fontes ouvidas pela Reuters reafirmaram a versão da convocação. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que não vai comentar o assunto.
Uma das fontes disse que não há previsão de mudança nas relações entre os dois países no curto prazo, já que Milei mantém o tom agressivo em relação ao Brasil. Para essa fonte, a ajuda na saída de Flávio se soma a um quadro de intromissão na política interna brasileira. A avaliação é da fonte, não de documento oficial.
Relação já estava rebaixada
Cortés responde pela representação argentina no Brasil desde que a crise diplomática começou, no fim de julho. Milei esteve no país para o lançamento da candidatura de Flávio e ofendeu Lula, o que repetiu depois em entrevistas e redes sociais. O Brasil retirou o embaixador em Buenos Aires, Júlio Bitelli, e rebaixou a relação ao nível de encarregado de negócios. O então embaixador argentino em Brasília, Daniel Ribondi, também voltou para casa. Detalhes do rebaixamento estão na matéria do Resenhando sobre o tema.
No campo judicial, a saída do senador já rendeu uma ação popular na 6ª Vara Federal do Rio de Janeiro que pede a suspensão de salário e verbas do senador. O governo argentino ainda não detalhou, publicamente, o que sabia da viagem além da negativa do chanceler.