Vieira condiciona normalização com a Argentina ao fim dos ataques de Milei
Chanceler disse ao jornal Clarín que as agressões do governo argentino a autoridades e instituições brasileiras precisam parar antes de qualquer retomada do vínculo bilateral
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a normalização das relações entre Brasil e Argentina depende do fim das agressões do governo de Javier Milei a autoridades e instituições brasileiras. A declaração foi dada em entrevista ao jornal argentino Clarín, divulgada no domingo, 9.
A fala veio seis dias depois de o governo brasileiro rebaixar o nível da relação diplomática com Buenos Aires, em 3 de agosto. Com a medida, o embaixador brasileiro Julio Bitelli deixou a Argentina e o embaixador argentino Guillermo Daniel Raimondi saiu de Brasília. Os dois países passaram a ser representados por encarregados de negócios.
"A relação entre Argentina e Brasil é muito importante. Deve-se parar imediatamente com esse tipo de agressões, para retomar o caminho da normalidade no vínculo binacional", disse o chanceler ao Clarín.
Vieira classificou como "totalmente falsas" parte das afirmações feitas pelo governo argentino sobre o Brasil e afirmou que os ataques têm sido dirigidos "contra o Brasil, as instituições brasileiras, os poderes".
O que motivou o rebaixamento
Em entrevista anterior, concedida ao programa argentino Modo Fontevecchia, o ministro havia detalhado o que levou à decisão. Segundo ele, as condições que provocaram o rebaixamento "foram os reiterados atos, insultos e agressões ao Brasil", às instituições e aos chefes dos poderes.
O acúmulo citado pelo Itamaraty inclui a participação de Milei, em 25 de julho, na convenção do PL ao lado do senador Flávio Bolsonaro, e declarações do presidente argentino em 2 de agosto nas quais chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de "ladrão" e "corrupto". Milei também se referiu ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes como "lixo careca" e afirmou que o Brasil sofre com o que chamou de "risco Lula".
Na mesma entrevista ao programa argentino, Vieira disse que o presidente Lula "sempre diz que a ele não interessa a cor do partido que está no poder em outro país", e associou parte das críticas vindas de Buenos Aires a "pessoas ligadas ao grupo que promoveu a tentativa de golpe de Estado no Brasil".
O que muda com o encarregado de negócios
O rebaixamento não rompe relações. Ele retira o representante de mais alto grau de cada lado e deixa a embaixada sob comando de um encarregado de negócios, funcionário de carreira que responde pelo posto sem o status político de embaixador. Na prática, o canal segue aberto para o trabalho consular e comercial, mas perde o interlocutor com acesso direto ao chefe de Estado do país anfitrião.
É por isso que a saída depende de gesto político, e não de trâmite administrativo. Vieira sustentou que a parceria entre os dois países é maior que a divergência entre os governos e que o retorno dos embaixadores depende de um movimento vindo de Buenos Aires.
O governo argentino reagiu ao rebaixamento afirmando que a gestão Lula se isola "por questões puramente ideológicas". Não houve, até a publicação da entrevista, gesto oficial de recuo nem resposta direta à condição apresentada por Vieira. Milei seguiu publicando críticas ao governo brasileiro em redes sociais.
Brasil e Argentina são os dois maiores sócios do Mercosul e mantêm cadeias industriais integradas, sobretudo no setor automotivo, o que torna o congelamento do canal diplomático um custo direto para os dois lados. O calendário eleitoral brasileiro também pesa: o país vai às urnas em outubro, e o desgaste com Buenos Aires já entrou na disputa interna, com aliados de Milei no campo da oposição a Lula.
Leia também: as notícias internacionais no Resenhando.