Governo Milei mantém acusação contra o Brasil e promete revelar fontes
Porta-voz da Presidência argentina diz que as bases da acusação virão de redes sociais e admite não ter o material disponível para apresentar
O governo do presidente da Argentina, Javier Milei, manteve nesta semana a acusação de que o Brasil financiou uma campanha contra o país e afirmou que vai divulgar em breve as fontes que sustentariam a afirmação. O porta-voz da Presidência argentina, Adrián Ravier, tratou do assunto em entrevista coletiva em Buenos Aires.
Ravier disse que há "fontes provenientes das redes sociais que precisariam ser avaliadas". Questionado, afirmou não ter o material disponível para apresentar naquele momento e prometeu fornecê-lo depois. Ele também associou o episódio a uma animosidade dirigida aos argentinos por causa de ideias liberais, e não apenas ao desempenho esportivo.
O que Milei afirmou
A acusação original foi feita pelo próprio Milei em 26 de julho, em entrevista a uma rádio argentina, um dia depois de ele participar da convenção do Partido Liberal (PL) em São Paulo. Na ocasião, o presidente argentino disse que o Brasil bancou parte de uma campanha de difamação contra a Argentina durante a Copa do Mundo de 2026.
"Quem investiu mais dinheiro nesta campanha anti-Argentina foi o Brasil. Uns 25% dos recursos saíram do governo do Brasil", afirmou Milei.
Ele estendeu a acusação ao governo do México e ao Partido Democrata dos Estados Unidos. Não apresentou documentos, registros financeiros ou qualquer outro elemento que sustentasse os percentuais citados. Na mesma entrevista, chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de "ex-presidiário" e afirmou que sua fala na convenção do PL respondia ao apoio dado por Lula ao candidato Sergio Massa em 2023.
Como o Brasil respondeu
Depois dos ataques na convenção do PL, o Itamaraty convocou para consultas em Brasília o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli. Em nota, o ministério afirmou que "não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao chefe de Estado".
O passo seguinte foi o rebaixamento do nível da relação diplomática. Bitelli não retornará ao posto, e a representação brasileira em Buenos Aires passou a ser conduzida por encarregado de negócios, patamar inferior ao de embaixador. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, condicionou a normalização ao fim do que classificou como agressões.
A escalada tem custo prático nos dois lados. Argentina e Brasil são os dois maiores sócios do Mercosul, e a interlocução entre chancelarias organiza desde regras de comércio automotivo até coordenação em negociações do bloco com terceiros países. Com a representação rebaixada, esse canal passa a operar em nível técnico.
O encarregado de negócios mantém a embaixada funcionando e responde por atos de rotina, como emissão de vistos e atendimento consular, mas não tem o mesmo acesso a autoridades de alto escalão que um embaixador acreditado. É um recuo formal que preserva a estrutura e reduz o canal político, recurso usado quando um governo quer registrar desagrado sem romper relações.
A campanha citada por Milei se referia ao período da Copa do Mundo de 2026, torneio já encerrado. O governo argentino não retirou a acusação depois do fim do mundial e agora afirma que apresentará as fontes.
Nenhum documento apresentado até agora liga o governo brasileiro ao financiamento descrito por Milei. A promessa do porta-voz é de que as fontes serão divulgadas, sem prazo definido.
A relação entre os dois governos vinha de meses de atrito público, com declarações do presidente argentino sobre Lula e sobre a política externa brasileira, e agora depende de um gesto de qualquer um dos lados para sair do nível em que está. Entenda como o Brasil rebaixou a relação diplomática com a Argentina.