Política

Direita passa de metade do Congresso e Lula terá de negociar "cada palavra do texto", dizem cientistas políticos

Seminário no Rio aponta eleições para as mesas da Câmara e do Senado, em fevereiro, como primeiro teste do governo

Neste texto3 tópicos
  1. Como ficou a conta no Congresso
  2. Os primeiros testes
  3. O que diz o governo

A direita terá mais da metade das cadeiras no próximo Congresso Nacional, e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará negociar projeto a projeto, possivelmente em torno de "cada palavra do texto". A avaliação é de cientistas políticos ouvidos pela Agência Brasil no Seminário Brasil 2027, promovido na semana passada pela Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

Lula foi reeleito em outubro com 64 milhões de votos, o maior número absoluto da história das eleições presidenciais brasileiras, mais que em 2022. Os analistas, porém, afirmam que o resultado nas urnas presidenciais não se traduz em facilidade no Legislativo.

Como ficou a conta no Congresso

O professor Lúcio Rennó, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), destacou que o avanço de parlamentares ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na Câmara dos Deputados e no Senado é o principal obstáculo à formação de maioria. Somando partidos como Progressistas (PP) e Republicanos, a direita passa de metade das cadeiras, segundo ele.

Rennó também avalia que, nos últimos 15 anos, uma série de reformas deslocou o equilíbrio de forças em favor do Legislativo. Para o professor, quem manda hoje são os presidentes da Câmara e do Senado, que definem a agenda, controlam a possibilidade de impeachment, participam de nomeações como as de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e decidem a alocação das emendas parlamentares.

O cientista político Cláudio Couto, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), prevê que a oposição tentará obstruir a agenda do Planalto. Citou como exemplo a resistência à reforma tributária do governo, mesmo com apoio de parlamentares do campo bolsonarista, como o senador Ciro Nogueira (PP). Segundo ele, os partidos do centrão terão papel decisivo na formação de uma base, sobretudo na Câmara.

Os primeiros testes

O primeiro teste dessa articulação será a eleição para as presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro. Rennó e Couto defendem ainda melhor coordenação dentro do próprio Executivo, para que os indicados das bancadas aliadas atuem pela pauta do governo. A Casa Civil, na avaliação de Couto, terá de mediar essa relação.

A tendência, segundo Couto, é que os projetos enviados pelo Executivo já nasçam com os interesses de vários grupos da base. "O Congresso vai querer mexer em tudo", disse Couto.

A Agência Brasil também registra que temas defendidos pela direita podem entrar na negociação. Um é a redução da maioridade penal, que o Senado separou da PEC da Segurança Pública na terça-feira, 3, por 38 votos a 36, e que seguirá como proposta paralela. Couto considera que a redução para 16 anos "parece uma proposta mediada", já que setores mais à direita defendem 14 anos em crimes hediondos. O Resenhando noticiou a votação da PEC.

O outro tema é uma reforma do Judiciário, em meio às críticas à atuação do STF e ao envolvimento de ministros com o Banco Master. Uma das propostas em discussão retira da Corte atribuições da Justiça Penal e impõe mandatos aos magistrados. Para Rennó, a vitória expressiva do PL, principalmente no Senado, "retrata a insatisfação popular com o STF", e por isso, com a legitimidade abalada, voltam à tona não só o impeachment como reformas profundas. A disputa pelo comando do Senado já esquenta: Derrite diz que não vota em Alcolumbre, e a oposição se reúne por Rogerio Marinho (PL-RN).

O que diz o governo

Lula tem dito em discursos que o cenário não é tão adverso e que pretende construir pontes com o Parlamento. A reportagem lembra que o terceiro mandato, mesmo com ambiente eleitoral desfavorável após o primeiro turno, aprovou pautas importantes, como o fim da escala 6x1.

A professora Talita Tanscheit, da PUC-Rio, defende que o PT mantenha vínculos permanentes com movimentos sociais e amplie a participação por conselhos e conferências. Couto, por sua vez, descreve a oposição como uma direita que "não reconhece a legitimidade do adversário", em avaliação do professor.

Informações da Agência Brasil, publicadas em 3 de novembro de 2026.