Política

Defesa de Zambelli diz que levará casos contra Moraes ao Tribunal de Haia

Advogado Fabio Pagnozzi afirma que reunirá episódios envolvendo nomes da direita em representação ao Tribunal Penal Internacional

O advogado Fabio Pagnozzi, que representa a ex-deputada federal Carla Zambelli no Brasil, afirmou que apresentará ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, uma representação contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A informação foi divulgada nesta quarta-feira, 5, pela Gazeta do Povo.

Segundo o advogado, ele embarcou para a Europa na própria quarta-feira para dar entrada no procedimento. A peça, de acordo com Pagnozzi, tratará do que ele classifica como abusos e episódios de perseguição política em julgamentos que envolvem nomes identificados com o campo conservador.

Além do caso de Zambelli, o advogado afirma que pretende incorporar à representação situações envolvendo o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o perito Eduardo Tagliaferro e o jornalista Oswaldo Eustáquio, entre outros nomes que, na avaliação dele, teriam sofrido perseguição nas condenações conduzidas pelo magistrado.

O que a defesa pretende apresentar

O ponto central da estratégia é a decisão da Corte de Cassação da Itália sobre o pedido de extradição de Zambelli.

Zambelli foi condenada pelo STF a 10 anos de prisão pela invasão do sistema eletrônico do Conselho Nacional de Justiça, ocorrida em 2023, e teve o mandato de deputada federal declarado extinto. Ela deixou o Brasil antes da execução da pena e foi presa em Roma em julho de 2025. Tem dupla cidadania e busca permanecer em território italiano.

Em 12 de junho de 2026, a Corte de Cassação da Itália negou o pedido de extradição e determinou a soltura da ex-deputada. O colegiado sustentou que o Tratado de Extradição entre os dois países permite recusar a entrega quando o processo estrangeiro não assegura os direitos mínimos de defesa, e o texto da decisão cita diretamente o ministro Alexandre de Moraes. Em 1º de julho, a mesma corte anulou um julgamento anterior que havia autorizado a extradição e determinou que fosse refeito.

Zambelli afirma que os magistrados italianos examinaram a documentação e reconheceram perseguição política, e é esse material que a defesa quer levar ao tribunal internacional.

Pagnozzi sustenta que a representação será enquadrada na categoria de crimes contra a humanidade, a mais grave das competências do TPI, que também julga genocídio, crimes de guerra e o crime de agressão.

Os limites de competência do tribunal

A iniciativa esbarra na natureza do tribunal acionado. O TPI não funciona como instância revisora de decisões de cortes nacionais e não julga recursos contra sentenças proferidas pelo Judiciário brasileiro.

A competência do tribunal se limita aos quatro crimes previstos no Estatuto de Roma e depende ainda do princípio da complementaridade: a corte só atua quando o Estado envolvido se mostra incapaz ou não disposto a investigar e julgar os fatos. Na prática, isso significa que a admissibilidade de uma representação como a anunciada é analisada antes de qualquer discussão sobre o mérito.

O Brasil é signatário do Estatuto de Roma desde 2002. Representações apresentadas por particulares à Procuradoria do TPI passam por exame preliminar, etapa em que a maior parte dos casos é arquivada sem abertura formal de investigação.

A representação anunciada não altera, por si só, a situação processual de Zambelli no Brasil. A execução da pena imposta pelo STF continua sob a jurisdição da corte brasileira, e eventual retorno da ex-deputada ao país segue vinculado ao desfecho do processo de extradição na Itália. O escritório da Procuradoria do TPI recebe comunicações de particulares e não divulga individualmente o andamento de cada uma.

O Supremo Tribunal Federal e o gabinete do ministro Alexandre de Moraes não se manifestaram publicamente sobre o anúncio até a publicação desta reportagem. O tribunal não costuma comentar iniciativas de defesa em processos em andamento.

Outros nomes citados pelo advogado respondem a processos em curso no Supremo. Nesta semana, a Procuradoria-Geral da República denunciou Oswaldo Eustáquio por associação criminosa, caso detalhado em PGR denuncia Oswaldo Eustáquio ao STF.

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