Fazenda corta projeção do PIB de 2026 para 2% e do IPCA para 4,9%
A SPE reduziu o PIB de 2026 de 2,3% para 2,0% e o IPCA de 5,1% para 4,9%. Veja o corte por setor e quanto do crescimento vem do gasto federal.
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O Ministério da Fazenda reduziu de 2,3% para 2,0% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto em 2026 e de 5,1% para 4,9% a projeção de inflação medida pelo IPCA. Os números estão no Boletim MacroFiscal divulgado nesta terça-feira, 22, pela Secretaria de Política Econômica (SPE).
Para 2027, a projeção de crescimento caiu de 2,5% para 2,3%. De 2028 a 2030, a SPE manteve a estimativa em torno de 2,6% ao ano e informou que a trajetória de juros projetada é a mesma da grade anterior, de modo que a revisão se concentra nos dois primeiros anos.

Onde a revisão foi feita
O corte se concentrou nos serviços, o maior setor da economia brasileira. A projeção para o setor passou de 2,4% para 1,8%, e a da indústria, de 2,1% para 1,7%. O movimento foi parcialmente compensado pela agropecuária, revisada para cima, de 1,8% para 2,8%.
No caso dos serviços, o boletim atribui a revisão ao carrego mais fraco deixado pelo primeiro semestre e à "transmissão defasada da política monetária sobre a demanda doméstica". As expectativas de mercado para a Selic terminal recuaram de 14,00% para 13,75% ao ano no período analisado pela SPE. O câmbio médio esperado para 2026 permaneceu em cerca de R$ 5,16 por dólar.
A projeção do governo segue acima da do mercado. Segundo o próprio boletim, a mediana das expectativas coletadas pelo Banco Central recuou de 2,0% para 1,9% em 2026 e de 1,7% para 1,5% em 2027. A grade de parâmetros de setembro foi fechada em 4 de setembro, com base na pesquisa Focus publicada em 31 de agosto.
Para o terceiro trimestre, a SPE projeta crescimento interanual de 1,8%, ante 2,0% no segundo. A desaceleração vem da agropecuária, que passa de 6,8% para 3,7%, e da indústria, de 1,5% para 1,3%. Na margem, com ajuste sazonal, o PIB deve avançar 0,2% no trimestre, ante 0,4% no anterior.
A inflação e o teto da meta
O IPCA acumulado em doze meses recuou de 4,6% em junho para 4,2% em agosto, abaixo do limite superior da meta, de 4,5%. O boletim credita o recuo à desaceleração dos preços monitorados, que passaram de 5,5% para 4,4% no período, com peso do bônus de Itaipu na conta de luz, cujo efeito o próprio documento diz que deve se reverter em setembro.
A inflação de serviços caiu de 5,9% em junho para 5,5% em agosto, puxada por passagens aéreas e alimentação fora do domicílio, enquanto os serviços subjacentes ficaram em torno de 5,0%. Nos alimentos, o boletim registra pressão de leite longa vida, carne bovina, cereais, leguminosas e oleaginosas, e aponta que a queda da participação de fêmeas no abate, hoje em 38,8% na média móvel de doze meses, pode marcar o início da fase de retenção do ciclo pecuário, com efeito altista sobre o preço do boi gordo.
Ainda assim, a projeção de 4,9% para o fechamento de 2026 fica acima do teto da meta de inflação, de 4,5%, no fechamento do ano.
Quanto do crescimento vem do gasto público
O boletim traz um quadro que raramente aparece na cobertura da grade de parâmetros. Em um boxe sobre o Impulso Estrutural do Gasto, a SPE calcula quanto a despesa federal adicionou ou subtraiu do crescimento em cada ano.
Em 2025, o impulso foi negativo em 1,0 ponto percentual do PIB, e a economia cresceu 2,3% apesar disso. Para 2026, a secretaria projeta reversão, com impulso positivo de 0,8 ponto percentual, sobre um crescimento esperado de 2,0%. O próprio texto observa que o número é "ainda inferior à metade do crescimento esperado". Para 2027, o impulso projetado é de 0,1 ponto percentual negativo, praticamente neutro, considerando a execução plena do orçamento enviado ao Congresso.
Os cálculos usam multiplicadores fiscais estimados por um modelo estatístico do tipo SVAR e partem do Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do terceiro bimestre de 2026 e da proposta orçamentária de 2027.
A íntegra está no Boletim MacroFiscal de setembro de 2026, publicado pelo Ministério da Fazenda, com 43 páginas. A próxima edição da grade de parâmetros sai em novembro, e o Copom volta a se reunir antes disso.
Em agosto, o Comitê de Política Monetária havia cortado a Selic para 14% ao ano, como mostrou a matéria sobre a decisão do Copom e a inflação projetada acima do teto. No campo fiscal, o Prisma Fiscal de setembro já apontava déficit primário de R$ 52,2 bilhões e dívida bruta em 83,2% do PIB.