Economia

Copom corta a Selic para 14% e inflação projetada segue acima do teto

Decisão unânime reduziu a taxa em 0,25 ponto na quarta redução seguida; Focus vê IPCA de 5,03% em 2026, contra teto de 4,5%

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic para 14% ao ano na reunião encerrada na quarta-feira, 5. O corte de 0,25 ponto percentual foi decidido por unanimidade entre os sete diretores do colegiado presidido por Gabriel Galípolo e passou a valer em 6 de agosto. É a quarta redução seguida do ciclo iniciado em março.

A decisão veio no mesmo compasso do que o mercado projetava. No Boletim Focus divulgado em 3 de agosto, com dados coletados até 31 de julho, a mediana das instituições consultadas pelo Banco Central apontava Selic de 13,75% no fim de 2026, contra 14% na semana anterior. Foi a primeira mudança na estimativa depois de meses de estabilidade, o que indicava a expectativa de mais um corte além do que o Copom entregou nesta reunião.

Na mesma coleta, a projeção para o IPCA de 2026 recuou de 5,12% para 5,03%, na quinta semana consecutiva de queda. A mediana para o câmbio no fim do ano seguiu em R$ 5,20 por dólar. Para 2027 e 2028, as previsões de Selic ficaram estáveis em 12% e 10,5%.

O que diz o comunicado

O texto divulgado pelo Copom após a decisão foi lido pelo mercado como mais restritivo do que se esperava para um encontro que cortou juros. Na conclusão, o comitê afirma que o cenário atual, marcado por aumento expressivo da incerteza, desalinhamento de expectativas e riscos elevados, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária.

A formulação deixa em aberto o passo seguinte. O Copom não sinalizou a magnitude do próximo corte nem se manterá o ritmo de 0,25 ponto, o que devolve a decisão de dezembro ao terreno dos dados de inflação e atividade que chegarem até lá.

A inflação projetada segue acima do teto

A projeção de 5,03% para o IPCA de 2026 continua acima do teto da meta de inflação, que é de 4,5%. A meta central é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. Pelo desenho vigente, o cumprimento é apurado de forma contínua, e não apenas no fechamento do ano-calendário.

Estourar o teto tem efeito prático sobre o custo do dinheiro público. Juros altos por mais tempo encarecem a rolagem da dívida, cuja maior parcela é indexada à Selic ou a índices de preços, e essa despesa disputa espaço no Orçamento com investimento e custeio. Cada fração de ponto na taxa básica se converte em bilhões de reais em despesa financeira ao longo de doze meses.

O juro alto também redesenha a decisão de quem tem dinheiro guardado. Dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira, 7, mostram que a caderneta de poupança registrou retirada líquida de R$ 7,15 bilhões em julho, resultado de R$ 377,92 bilhões em saques contra R$ 370,76 bilhões em depósitos. Em julho de 2025, a retirada líquida havia sido de R$ 6,25 bilhões. O estoque aplicado na caderneta encerrou o mês em R$ 1,02 trilhão.

Com a Selic em dois dígitos, a remuneração da poupança fica travada em 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial, patamar que perde para aplicações atreladas ao CDI. O saldo negativo mês após mês indica migração de recursos para produtos de renda fixa que acompanham a taxa básica.

Para o tomador de crédito, o efeito é mais lento. A queda da Selic leva meses para chegar ao juro final cobrado em financiamento imobiliário, crédito consignado e capital de giro, e a distância entre a taxa básica e a taxa cobrada no balcão permanece entre as maiores do mundo.

O Banco Central divulga o próximo Boletim Focus na segunda-feira, com a primeira leitura das expectativas coletadas depois da decisão do Copom. A ata da reunião, que costuma detalhar o balanço de riscos por trás do comunicado, sai na terça-feira seguinte ao encontro.

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