Opinião

O preço do dinheiro, não a falta de planilha

Artigo assinado pela Redação Resenhando sobre os 82% de famílias endividadas medidos pela CNC em julho

Artigo assinado pela Redação Resenhando. Texto de opinião.

Oito em cada dez famílias brasileiras devem. O dado de julho da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio, colocou o endividamento em 82,0%, contra 81,6% em junho. Quando um número desses aparece, a explicação que costuma vir junto é a de sempre: falta educação financeira. Não é isso. O que falta é dinheiro barato.

A distribuição do dado desmonta a tese comportamental. Entre famílias que ganham até três salários mínimos, o endividamento chega a 84,9%. Acima de dez salários, cai para 72,0%. Se o problema fosse desorganização individual, ele não se concentraria com tanta precisão na faixa de renda que tem menos folga no orçamento. Endividamento que segue a renda é preço, não é hábito.

Quem não consegue mais pagar

O segundo número da pesquisa é o que dói. A inadimplência atingiu 29,8% das famílias, e 17,8% das que ganham até três salários mínimos declararam não ter condição de pagar o que devem. Essa última linha não é endividamento, é insolvência declarada. É a família que já sabe que a conta não fecha, e diz isso ao entrevistador.

O perfil da dívida explica por que a conta não fecha. Cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal. São as linhas mais caras do mercado, contratadas justamente por quem tem menos acesso ao crédito barato. O rotativo do cartão é o exemplo mais direto: quem entra nele não escolheu um produto financeiro, ficou sem alternativa no fim do mês.

O presidente da CNC, José Roberto Tadros, resumiu que "os números mostram que é preciso avançar em medidas que aliviem o bolso do trabalhador". O economista-chefe da entidade, Fabio Bentes, apontou a direção: "a decisão de reduzir os juros básicos tende a contribuir para a diminuição do custo das novas operações".

Vale registrar o que a pesquisa mede e o que ela não mede. A Peic considera endividada a família com qualquer conta a vencer nas linhas pesquisadas, o que inclui o financiamento do imóvel e a prestação do carro. Uma parte desses 82% é dívida planejada, de gente que decidiu comprar a casa. O problema não é o percentual em si, é para onde ele se desloca quando o juro sobe: da dívida com contrapartida em patrimônio para a dívida de consumo corrente, contratada para atravessar o mês.

O que o corte da Selic resolve, e o que não resolve

O Copom cortou a Selic para 14% ao ano na reunião de agosto. É a direção certa, e Bentes está correto ao dizer que isso baixa o custo das operações novas. O detalhe é a palavra novas. Quem já está no rotativo, no cheque especial ou no carnê contratou a taxa de antes, e a queda de 0,25 ponto na Selic não entra retroativamente no contrato que já pesa.

Há ainda a distância entre a taxa básica e a que chega ao balcão. A Selic é o piso. O que o consumidor paga no cartão está dezenas de pontos acima dele, e essa diferença não se move na mesma velocidade da decisão do Banco Central. Levar meio ponto de Selic até o custo efetivo de quem já deve é um percurso que leva trimestres, e a pesquisa da CNC é mensal.

Por isso o número de julho não deve ser lido como fracasso de quem se endividou. Ele é o retrato de um país que passou anos com a taxa básica em dois dígitos altos e que agora começa a descer de um patamar caro. Enquanto o crédito custar o que custa, a Peic vai seguir batendo recorde, e o discurso da planilha doméstica vai seguir explicando o país errado.

O Resenhando tratou do custo do dinheiro nas matérias sobre o corte da Selic para 14% e sobre a saída líquida de R$ 7,15 bilhões da poupança em julho.

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