Poupança perde R$ 7,15 bilhões em julho, pior resultado do ano
Com Selic em 14% ao ano, caderneta trava no teto legal de 0,5% ao mês mais TR e perde para aplicações atreladas ao CDI
As retiradas da caderneta de poupança superaram os depósitos em R$ 7,15 bilhões em julho, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira, 7. O resultado é o pior do ano e supera a saída líquida de R$ 6,25 bilhões registrada em julho de 2025.
No mês, os brasileiros aplicaram R$ 370,76 bilhões e sacaram R$ 377,92 bilhões. Em junho, as duas pontas estavam quase empatadas, com R$ 378,06 bilhões de depósitos e R$ 378,3 bilhões de saques, o que havia produzido saída líquida de pouco mais de R$ 237,5 milhões.
A comparação com junho mostra onde o resultado piorou. Os depósitos caíram R$ 7,3 bilhões, redução de 1,9%, enquanto os saques recuaram apenas R$ 380 milhões, ou 0,1%. Na comparação com julho do ano passado, os aportes cresceram R$ 7,19 bilhões, alta de 2%, mas os saques avançaram R$ 8,1 bilhões, ritmo maior. O estoque total da caderneta ficou estável em R$ 1,02 trilhão.
O que a Selic de 14% faz com a caderneta
A remuneração da poupança é definida em lei e trava no teto sempre que a Selic passa de 8,5% ao ano: 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial. Com a taxa básica em 14% ao ano e a TR na casa de 0,17% ao mês, a caderneta paga algo próximo de 0,67% ao mês a quem espera o aniversário do depósito.
O teto legal é o ponto central da migração. Enquanto o juro básico sobe, a poupança não acompanha, e aplicações atreladas ao CDI passam a entregar retorno superior mesmo depois do desconto do Imposto de Renda. O poupador que troca de produto não está fugindo do sistema financeiro, está respondendo a um preço.
Quem saca não é só quem investe
Parte da saída não tem relação com rentabilidade. A poupança é a conta de reserva da família brasileira de renda média e baixa, usada para atravessar mês apertado. Em um cenário de crédito caro, com juros do rotativo do cartão e do cheque especial em patamar elevado, o dinheiro guardado vira a fonte mais barata de recurso disponível.
Os números do Banco Central não separam os dois movimentos. O que eles mostram é o resultado combinado: menos dinheiro novo entrando e o mesmo volume de dinheiro velho saindo. O estoque estável em R$ 1,02 trilhão indica que a caderneta não está se esvaziando, mas também não está crescendo em termos reais.
Um estoque de R$ 1 trilhão que financia moradia
O saldo da poupança não fica parado no banco. Por regra do Conselho Monetário Nacional, a maior parte dos recursos captados pela caderneta é direcionada ao crédito imobiliário dentro do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo. Quando a captação líquida fica negativa mês após mês, o funding do financiamento habitacional encolhe, e a conta reaparece na taxa cobrada de quem vai comprar imóvel.
Esse é o elo que costuma passar batido na leitura do dado mensal. A saída de R$ 7,15 bilhões em julho é pequena diante do estoque de R$ 1,02 trilhão, menos de 0,7% do total, mas a tendência importa mais que o mês isolado. Um ano inteiro de captação negativa muda a base de recursos disponível para crédito imobiliário com juro subsidiado.
Os números de julho
- Depósitos: R$ 370,76 bilhões
- Saques: R$ 377,92 bilhões
- Saída líquida: R$ 7,15 bilhões
- Julho de 2025: saída líquida de R$ 6,25 bilhões
- Estoque total: R$ 1,02 trilhão
O Banco Central atualiza a série de captação da poupança todo mês. O dado de agosto mostrará se julho foi ponto fora da curva ou o começo de uma sequência de saques em ano eleitoral. Leia também a decisão do Copom que fixou a Selic em 14% ao ano.