BC corta o PIB de 2026 para 1,8% e fica abaixo da Fazenda dois dias depois
O Banco Central projeta 1,8% de PIB e 5,2% de inflação; a Fazenda, 2,0% e 4,9%. Veja a grade das duas na mesma tabela e o que muda para os juros.
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O Banco Central reduziu de 2% para 1,8% a projeção de crescimento da economia brasileira em 2026 e manteve em 5,2% a estimativa de inflação para o fim do ano. Os números estão no Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira, 24, e colocam a autoridade monetária abaixo do Ministério da Fazenda.
A diferença não é detalhe de planilha. Dois dias antes, em 22 de setembro, a Secretaria de Política Econômica (SPE) divulgou o Boletim MacroFiscal com PIB de 2,0% em 2026 e IPCA de 4,9%. O Banco Central projeta menos crescimento e mais inflação que a equipe econômica do governo, nas duas pontas.
Onde os dois governos discordam
Para 2026, a distância é de 0,2 ponto percentual no PIB e de 0,3 ponto na inflação. Para 2027, o desacordo é maior: o Banco Central projeta 1,4% de crescimento e a Fazenda, 2,3%. São 0,9 ponto de diferença sobre o ano em que o próximo governo começa a executar orçamento.

Quem faz a conta do lado de fora precisa escolher uma das duas grades. A da Fazenda sustenta a projeção de receita do Orçamento; a do Banco Central sustenta a decisão de juros. Quando as duas se afastam, o custo aparece na diferença entre o que o governo espera arrecadar e o que a economia entrega.
Por que o Banco Central cortou a projeção
O relatório aponta desaceleração da atividade. O Produto Interno Bruto cresceu 0,5% no segundo trimestre deste ano, depois de expansão de 1,1% no trimestre anterior. Os primeiros indicadores do terceiro trimestre, segundo o BC, sugerem continuidade desse movimento. Foi essa leitura que derrubou a projeção de 2% para 1,8%.
O mercado de trabalho segue no sentido contrário. A taxa de desocupação permaneceu em nível historicamente baixo e a geração de empregos com carteira assinada continua positiva, embora em ritmo menor. É um quadro incômodo para quem precisa derrubar preço: atividade esfriando e emprego aquecido ao mesmo tempo.
O que trava a inflação
O IPCA acumulado em 12 meses recuou de 4,72% em maio para 4,22% em agosto. A queda não convenceu o Banco Central. O documento registra que a inflação de serviços "segue elevada em cenário de mercado de trabalho aquecido e hiato do produto positivo", e que as expectativas permanecem acima da meta em todo o horizonte de projeção.
No cenário de referência do Comitê de Política Monetária, a inflação acumulada em quatro trimestres recua para 4,4% no terceiro trimestre deste ano e volta a subir para 5,2% no fim de 2026. Para o primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante da política monetária hoje, a projeção ficou em 3,2%. O BC diz que esse número ficou estável em relação ao relatório anterior, mas que a trajetória projetada para a inflação "se tornou mais elevada de forma geral".
Na reunião de setembro, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano. O corte foi chamado de tímido por indústria e centrais sindicais, que pediam ritmo maior.
O que o relatório diz sobre o mundo lá fora
O Banco Central aponta que o ambiente externo permanece incerto por causa dos conflitos armados ainda não resolvidos no Oriente Médio e das decisões futuras de política monetária nas economias avançadas. O documento conclui que o cenário atual, marcado pelo aumento das incertezas, pela desancoragem das expectativas e pelos riscos para a inflação, exige cautela.
Cautela, no vocabulário do Copom, costuma significar ritmo de corte menor do que o mercado gostaria. Com a inflação projetada em 5,2% para o fim de 2026 e a meta em 3%, o comitê termina o ano descrevendo um cenário em que não entrega o alvo.
O que acompanhar
- O IPCA-15 de setembro, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira, 25, que testa a projeção de 5,2% do próprio Banco Central.
- A próxima reunião do Copom, que decide se o ritmo de corte da Selic continua em 0,25 ponto.
- O Boletim MacroFiscal de outubro, que mostra se a Fazenda desce para perto do 1,8% do BC ou mantém a divergência.
O relatório completo está disponível na página de publicações do Banco Central.