Opinião

Arruda fraco e Celina forte: o que as duas convenções do DF revelaram

EDITORIAL — Há convenções que consagram e convenções que apenas cumprem tabela. A do PSD, no sábado, ficou perigosamente perto da segunda categoria

Este texto é um editorial e expressa a opinião do Resenhando Brasil. Análises assinadas e editoriais não se confundem com a cobertura factual do portal.


Há convenções que consagram e convenções que apenas cumprem tabela. A do PSD, neste sábado, ficou perigosamente perto da segunda categoria.

José Roberto Arruda subiu ao palanque do CICB inelegível — e, o que é pior para quem precisa projetar unidade, subiu sem ter fechado a própria chapa. Não é leitura de adversário. É o que ele mesmo disse ao microfone: "Deixaremos as atas em aberto porque, na política, quem tem tempo não tem pressa."

Quem tem tempo não tem pressa. Quem não tem vice, tampouco tem chapa.

O nó na cabeça da chapa

A vaga de vice virou o retrato do problema. De um lado, o Avante de Gim Argello trabalha pela indicação do próprio filho, Jorge Argello — um nome que nunca exerceu mandato e que o eleitorado do DF ainda não conhece. De outro, Arruda quer usar a vaga como moeda de coligação, para atrair partidos que hoje estão fora do arranjo. Chegou a convidar formalmente o Podemos a indicar Luiz França; chegou a sugerir Ronaldo Fonseca.

Dois cálculos legítimos. Duas contas que não fecham. E a conta venceu justamente na semana da convenção.

O incômodo não parou aí. Arruda e Ronaldo Caiado anunciaram Paulo Octávio ao Senado em 29 de julho. Horas depois, Paulo Octávio desmentiu ao Correio Braziliense, dizendo que não havia confirmado nada e que o anúncio serviu para pressioná-lo. Quem contestou publicamente o anúncio da chapa foi o presidente do PSD no Distrito Federal — o dirigente máximo do partido anfitrião.

Some-se a isso o roteiro do próprio evento, convertido em vitrine para Caiado e seu projeto nacional, com Gilberto Kassab ao lado. Arruda organiza. Caiado aparece.

A conta jurídica que não se resolve no palanque

Nada disso, porém, pesa tanto quanto o que está parado no Supremo.

Arruda foi condenado por improbidade administrativa em seis processos da Caixa de Pandora, com multa e ressarcimento somando R$ 594 milhões. Em 2010, foi o primeiro governador em exercício do país a ser preso preventivamente. Em fevereiro deste ano, o TJDFT negou seu recurso e manteve a condenação.

A tábua a que ele se agarra é a flexibilização da Lei da Ficha Limpa, promovida pela LC 219/2025. E o placar, antes do pedido de vista de Gilmar Mendes, era de 2 votos a 0 contra o afrouxamento das regras — Cármen Lúcia, relatora, e Luiz Fux. O voto que falta é esperado até 26 de agosto, praticamente sobre o prazo de registro.

Ou seja: o candidato pediu tempo para fechar a chapa até 15 de agosto, mas quem decide se ele terá chapa é um tribunal que vota depois disso.

O contraste vem em menos de 24 horas

Neste domingo, às 9h, a federação União Progressista realiza sua convenção no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, o maior endereço do gênero na capital, com expectativa de lotar os milhares de lugares disponíveis.

E não é questão de metragem. É a diferença entre um partido que precisa explicar suas divisões e outro que só precisa acomodar quem quer entrar. Celina Leão sobe ao palanque com o vice já definido — Gustavo Rocha, dos Republicanos — e com uma nominata que reúne Pepa, Eduardo Pedrosa, Pastor Daniel de Castro, Valdelino Barcelos e Cláudio Abrantes, bases que pouco se sobrepõem e que a federação avalia poder converter em até quatro cadeiras.

As pesquisas acompanham o roteiro. O Paraná Pesquisas (registro TSE DF-01326/2026) aponta Celina com 34,6% contra 28,1% de Arruda, vantagem de 6,5 pontos, acima da margem de erro. Num cenário sem ele, ela vai a 45,9%. E o número que mais importa numa reeleição: 58,3% aprovam a gestão, contra 37,6% que desaprovam.

É o ativo mais difícil de desmontar em campanha, porque não depende de palanque para existir.

O que fica

A eleição ainda será disputada, e seria tolice tratar 28,1% como pouca coisa — os institutos apontam cenário de segundo turno, e Arruda é o principal adversário da governadora. Mas há uma diferença entre chegar forte e chegar pronto.

Neste fim de semana, uma chapa subiu ao palco resolvida. A outra subiu com as atas em aberto e a elegibilidade do cabeça dependendo de um voto que ainda não foi proferido.

Quem quiser entender o tabuleiro do DF pode começar por estas duas convenções.


Editorial do Resenhando Brasil. Dados de pesquisa: Paraná Pesquisas (DF-01326/2026) e Exata OP (DF-02994/2026). Declarações e fatos apurados por Metrópoles, Correio Braziliense, Jornal de Brasília, O Hoje e Diário do Poder.

Foto de capa: reprodução.

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