Economia

Estudo da USP: sem ganho real em benefícios, renda do interior cairia até 10,8%

Levantamento mede o efeito sobre o comércio local; a IFI acompanha o custo do BPC para o Orçamento

A renda das cidades do interior do Brasil ficaria de 6,8% a 10,8% menor em três anos se aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) deixassem de ter ganho real. A conta é de um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da USP, divulgado nesta semana e publicado pela Agência Brasil no sábado (17).

O que o estudo mede

O Made comparou dois cenários. No primeiro, vale o período de 2022 a 2025, em que o BPC e as aposentadorias tiveram crescimento real. No segundo, os reajustes de 2019 a 2022, sem ganho real do salário mínimo e com congelamento total. A diferença entre os dois, projetada para os próximos três anos, é a retração de 6,8% a 10,8% na renda agregada do interior.

Dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil ficam fora das regiões metropolitanas. Nesses, segundo o estudo, o peso das transferências públicas chega ao dobro do observado nos grandes centros. No Ceará, benefícios sociais e previdenciários respondem por 22% da renda agregada da capital e da região metropolitana e por 40% no interior.

Por estado, a queda seria maior no interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, entre 17% e 18%. Em Amazonas, Sergipe e Pernambuco, ficaria perto de 15%. Em Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, entre 10% e 13%. Em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, chegaria a 6,5%.

O levantamento também simula a pobreza. Sem ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025, cerca de 2,7 milhões de pessoas teriam entrado na pobreza fora das regiões metropolitanas, 2,4 milhões delas na extrema pobreza. Os maiores aumentos absolutos apareceriam na Bahia (até 336 mil pessoas), em São Paulo (até 263 mil) e em Minas Gerais (até 251 mil).

A economista Luiza Nassif, professora da Unicamp e pesquisadora do Made, afirmou que, como as famílias gastam o valor quase todo em itens básicos, "o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa".

O custo dos benefícios para a União

O estudo trata do efeito sobre a renda local. Não calcula o custo para o Orçamento federal, que é o ponto que a Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, acompanha. No relatório de março, a IFI informou que o BPC custou R$ 127,2 bilhões em 2025, cerca de 5% da despesa primária da União. Em dez anos, segundo o órgão, o BPC cresceu 5,8% ao ano em termos reais, contra 2% da despesa total.

O diretor da IFI, Alexandre Andrade, disse à Rádio Senado que o avanço dessa despesa merece atenção. O benefício é atrelado ao salário mínimo, o que influencia os pagamentos, mas o relatório aponta como fator principal o número de beneficiários. Entre 2021 e 2025, o salário mínimo teve ganho real de 10,1%, e o estoque de benefícios do BPC cresceu 35,1%, segundo o relatório citado pelo site Capital Aberto. Em 2025, foram emitidos 6,4 milhões de benefícios, 2,7 milhões a idosos e 3,7 milhões a pessoas com deficiência.

As duas leituras partem de bases diferentes. O Made mede o que acontece com o comércio e a renda das cidades quando o benefício cresce acima da inflação. A IFI mede quanto o crescimento dessa despesa pesa nas contas da União. A reportagem da Agência Brasil não traz manifestação do governo federal sobre o estudo.

Outros números fiscais acompanhados pela IFI estão em nossa cobertura sobre a trajetória da dívida bruta e sobre o limite da regra de ouro em 2026.