Economia

Lula poderá nomear seis diretores do BC até 2027 e ter maioria no Copom

Duas vagas estão abertas desde janeiro; mercado teme que nomes novos afrouxem o combate à inflação

Neste texto3 tópicos
  1. Quais vagas se abrem e quando
  2. O que preocupa o mercado
  3. Quem fica no colegiado

O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderá indicar mais seis nomes à diretoria do Banco Central (BC) até o fim de 2027, o que dará ao governo a maioria do colegiado de nove cadeiras que inclui o Comitê de Política Monetária (Copom). A conta consta de reportagem da Folha de S.Paulo reproduzida pelo Jornal de Brasília nesta terça-feira, 3.

Quais vagas se abrem e quando

Segundo a reportagem, duas cadeiras estão desocupadas desde janeiro. O Metrópoles já registrava em maio que as vagas eram as diretorias de Organização do Sistema Financeiro e de Política Econômica, antes ocupadas por indicados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Outras duas indicações poderão ser feitas até fevereiro de 2027, e mais duas vagas abrem em 31 de dezembro de 2027.

Entre as que se abrem no início do ano está a de Fiscalização, que fica desocupada a partir de março. Os dois ex-integrantes do BC ouvidos pela Folha apostam que ela será preenchida de novo por um servidor de carreira. A recondução do atual diretor, Aílton de Aquino, não está descartada, mas o desgaste do caso do Banco Master pesa. Aquino prestou depoimento à Polícia Federal sobre a fiscalização que levou à liquidação da instituição de Daniel Vorcaro; internamente, há confiança no trabalho dele, diz a reportagem.

Mesa da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado durante a sabatina de outubro de 2024
Mesa da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado na sabatina de outubro de 2024. Cada nome indicado ao BC passa por esse colegiado.Foto: Agência Senado/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Cada nome passa por uma etapa fora do Executivo. O presidente da República indica, mas a Constituição exige aprovação prévia do Senado, após arguição pública. Na prática, a sabatina acontece na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Os dados do colegiado atual estão na página da diretoria do Banco Central.

O que preocupa o mercado

A possibilidade de mudança no perfil do colegiado entrou no radar do mercado depois da vitória de Lula. O temor, segundo a Folha, é que o BC fique mais leniente com a inflação para acelerar a queda da Selic. A meta atual é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, e analistas esperam a volta do debate sobre flexibilizá-la.

O rumor mais comentado foi o do economista André Roncaglia, diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), que teria sido cotado para uma das vagas. Procurado, ele disse que não recebeu contato da equipe econômica: "Não me cabe comentar sobre algo que é prerrogativa do presidente Lula". A notícia mexeu com os preços do mercado financeiro, segundo a reportagem.

Há leituras divergentes. O ex-presidente do BC Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria, vê a chance de o governo escolher nomes mais maleáveis e chamou o aumento da meta de "jogada de toalha". O ex-diretor Sérgio Werlang, professor da FGV, avalia que Lula sabe que inflação alta significa "falta de popularidade na veia" e deve manter o perfil moderadamente conservador de Gabriel Galípolo e do diretor Paulo Picchetti.

Quem fica no colegiado

Depois das seis nomeações, restariam do grupo atual os diretores Gilneu Vivan (Regulação) e Izabela Correa (Cidadania e Supervisão de Conduta), além de Galípolo. Os mandatos dos três terminam em 31 de dezembro de 2028. Em 8 de maio de 2024, o Copom já rachou por 5 votos a 4 sobre o ritmo de corte dos juros, com Galípolo e os demais indicados de Lula defendendo uma redução maior, e todas as decisões seguintes foram unânimes.

O economista-chefe da XP, Caio Megale, defende pressa: com duas diretorias vagas há quase um ano, "começa a faltar braço" a um BC desenhado para nove. Duas vagas seguem abertas e dependem de uma mensagem de Lula ao Senado. Sobre os juros hoje, veja como o Copom chega à reunião de novembro, e sobre a blindagem do banco, a cobrança pela PEC que amplia a autonomia do BC.