Lara Resende acusa o BC de causar o rombo fiscal com juros altos, a dois dias do Copom
Artigo do economista do Plano Real ganha força com a ofensiva do governo contra o mercado
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O economista André Lara Resende, um dos autores do Plano Real, acusa o Banco Central de sustentar uma taxa de juros que seria a principal causa do desequilíbrio fiscal que a autoridade monetária diz combater. O artigo, publicado em 25 de setembro, voltou ao centro do debate nesta segunda-feira (2), a dois dias da decisão do Copom sobre a Selic, hoje em 13,75% ao ano.
Ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do BNDES, Lara Resende escreveu o texto, intitulado "Eu Acuso", na plataforma Substack, às vésperas do primeiro turno. A Agência Brasil resumiu os argumentos em reportagem publicada nesta segunda.
O que diz o artigo
A tese central é que o problema das contas públicas está nos juros, e não no gasto primário, aquele que exclui o pagamento da dívida. "Quando se exclui o serviço da dívida, as contas estão praticamente equilibradas", escreveu. Segundo ele, o déficit nominal, puxado pelos juros, "aproxima-se de 10% do PIB".
O economista cita que, nos últimos 12 meses, os juros consumiram mais de R$ 1,1 trilhão do orçamento, ou 8,9% do PIB. A dívida pública saiu de 71,7% do PIB em 2022 para cerca de 82,9% em agosto de 2026. Ele reconhece que essa trajetória é insustentável, mas afirma que nenhum corte de despesa a interrompe sem uma queda dos juros para perto do crescimento nominal da economia.
Lara Resende também admite que o país gasta mal. Aponta como exemplos as emendas parlamentares, as vantagens salariais do Judiciário e as isenções tributárias "de toda ordem". E reconhece que baixar os juros eleva a inflação, mas sustenta que o efeito é de curto prazo e passageiro.
A proposta é um novo regime fiscal e monetário, com metas de juros anunciadas junto com as de inflação e as fiscais, por quatro a cinco anos. O Banco Central se comprometeria a manter a taxa básica num intervalo entre a meta de inflação, de 3%, e o crescimento nominal potencial. Para conter eventual desvalorização do real, ele diz que as reservas internacionais, de mais de US$ 350 bilhões, dão "munição de sobra" ao BC.
A resposta do Banco Central e do mercado
O Banco Central justifica a Selic elevada pelas pressões inflacionárias e pelos déficits primários. Na última ata, o Copom afirma que "o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros".
No Focus de 23 de outubro, os analistas de mercado projetavam a Selic em 13,25% ao fim de 2026 e IPCA de 5,19% no ano, segundo a base de expectativas do próprio Banco Central. A autoridade monetária não comentou o artigo na reportagem da Agência Brasil.
Por que o texto voltou à pauta
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo reproduzida pelo Jornal de Brasília, integrantes do governo e do PT intensificaram, depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), uma ofensiva contra o que chamam de "chantagem, terrorismo e especulação" do mercado financeiro. A ex-presidente do PT Gleisi Hoffmann usou o artigo de Lara Resende para criticar a cobrança de ajuste fiscal. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), disse à Folha ver "chantagem" do mercado e defendeu que os cortes mirem "privilégios", como desonerações, supersalários e emendas impositivas.
O Resenhando já mostrou que a dívida chegou a 82,9% do PIB em agosto, com R$ 1,1 trilhão em juros em 12 meses, e acompanha o Copom de 4 de novembro.
A reunião do Copom está marcada para 3 e 4 de novembro, com decisão no fim da tarde de quarta-feira. O comunicado e a ata do encontro dirão se o Banco Central responde ao argumento de que os juros, e não o gasto primário, explicam a dívida.
Fontes: Agência Brasil (2/11/2026), Jornal de Brasília/Folhapress (2/11/2026) e expectativas de mercado do Banco Central (Focus, 23/10/2026).