Milei diz que aliança com os EUA é a chave para retomar as Malvinas
Em entrevista à Rádio Mitre, o presidente argentino afirmou que Washington precisa de um aliado confiável na transição do Atlântico para o Pacífico
O presidente da Argentina, Javier Milei, afirmou que a aliança com os Estados Unidos é a chave para o país recuperar as Ilhas Malvinas. A declaração foi dada em entrevista à Rádio Mitre e divulgada nesta segunda-feira, 3, pela Gazeta do Povo.
Milei sustentou que a mudança de prioridades geopolíticas de Washington abre espaço para a Argentina se posicionar como parceiro preferencial no Atlântico Sul.
Os EUA mudaram sua visão estratégica do mundo; eles enxergam isso de uma perspectiva política, e um aliado confiável é necessário na transição do Atlântico para o Pacífico.
O argumento inverte a lógica que orientou a política externa argentina sobre o tema nas últimas décadas. Em vez de buscar apoio nos foros multilaterais, sobretudo no Comitê de Descolonização da Organização das Nações Unidas, onde a Argentina acumula resoluções favoráveis à negociação bilateral, Milei aposta na relação direta com o principal aliado militar do Reino Unido.
Uma disputa de quase dois séculos
A Argentina perdeu o controle do arquipélago para a Grã-Bretanha em 1833 e nunca abandonou a reivindicação de soberania, inscrita na Constituição argentina. A tentativa de retomada pela força, em 1982, terminou em derrota militar diante do Reino Unido e acelerou a queda da ditadura que governava o país.
Desde então, Buenos Aires sustenta a via diplomática. Londres, por sua vez, condiciona qualquer discussão à vontade dos habitantes das ilhas, que em referendo realizado em 2013 votaram de forma quase unânime por permanecer como território ultramarino britânico. A posição do princípio de autodeterminação, defendida pelo Reino Unido, colide frontalmente com o princípio de integridade territorial invocado pela Argentina.
A reportagem não registra manifestação oficial do governo britânico sobre as declarações de Milei. O texto menciona tensão em Londres decorrente de declarações anteriores da vice-presidente Victoria Villarruel e comunicação entre os dois países.
O que está em jogo além da soberania
A área ao redor do arquipélago concentra interesses econômicos concretos. As águas do Atlântico Sul estão entre as mais produtivas do mundo em pesca, especialmente de lula, e a plataforma continental na região é objeto de prospecção de petróleo e gás. Some-se a isso a posição das ilhas como ponto de apoio para o acesso à Antártida, onde tanto Argentina quanto Reino Unido mantêm reivindicações territoriais sobrepostas.
Para os Estados Unidos, o cálculo envolve custo diplomático. Apoiar a reivindicação argentina significaria contrariar o Reino Unido, parceiro na Otan e no arranjo de inteligência dos Cinco Olhos. Historicamente, Washington adotou posição de neutralidade formal sobre a soberania das ilhas, mesmo durante a guerra de 1982, quando prestou apoio logístico e de inteligência aos britânicos.
Milei mantém desde a posse alinhamento declarado com os Estados Unidos, orientação que já produziu atritos com parceiros regionais, entre eles o Brasil. A declaração sobre as Malvinas insere a disputa territorial mais antiga da agenda externa argentina dentro dessa estratégia.
Uma aposta com precedente desfavorável
A tese de que o alinhamento com Washington pode destravar a soberania sobre o arquipélago enfrenta um obstáculo documentado na própria história recente da Argentina. Em 1982, o país também apostava em neutralidade norte-americana favorável, com base no sistema interamericano de defesa. O resultado foi o oposto: os Estados Unidos escolheram o aliado da Otan.
O que mudou desde então é o peso relativo da região na estratégia americana. A disputa com a China por influência na América do Sul, o interesse em minerais críticos como o lítio e a preocupação com a presença chinesa em portos e em estações de rastreamento espacial no território argentino deram a Buenos Aires ativos de negociação que não existiam há quatro décadas.
Ainda assim, nada indica disposição britânica de reabrir a questão. Londres trata a soberania como assunto encerrado enquanto os habitantes das ilhas mantiverem a preferência manifestada em 2013, posição sustentada por governos conservadores e trabalhistas sem variação relevante.
Para a Argentina, o custo de vincular a reivindicação à relação com um terceiro país é abrir mão de parte do capital diplomático acumulado nos foros multilaterais, onde a posição argentina é majoritária. Se a aposta não se converter em pressão concreta sobre Londres, o país terá trocado um instrumento lento e previsível por outro que não depende dele.