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EUA põem até US$ 7 bilhões no corredor que liga Vaca Muerta ao Atlântico

O Corredor Andes-Atlântico é o primeiro do G7 nas Américas. O valor é teto de financiamento do Exim Bank, condicionado a projeto, e não repasse.

Os Estados Unidos e a Argentina lançaram na quarta-feira, 23, em Nova York, o Corredor Andes-Atlântico, uma iniciativa conjunta para reformar ferrovias, dutos, portos, linhas de transmissão e redes digitais que ligam o noroeste argentino e a bacia de Vaca Muerta aos portos do Atlântico. O anúncio saiu à margem da Assembleia Geral da ONU e veio acompanhado de um número: até US$ 7 bilhões em financiamento americano até 2027.

O corredor foi assinado pelo vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, e pelo ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno. É o primeiro corredor da Parceria para Infraestrutura e Investimento Global, iniciativa do G7, criado no Hemisfério Ocidental. Os outros quatro ficam na África, na Ásia e na Eurásia.

O que os US$ 7 bilhões são, e o que não são

A leitura de que o governo americano vai injetar US$ 7 bilhões na economia argentina não resiste ao texto oficial. A ficha técnica do Departamento de Estado descreve o valor como o teto de um acordo assinado separadamente entre o Exim Bank, o banco de exportação e importação dos Estados Unidos, e a Argentina, chamado Marco Build the Future. É linha de financiamento condicionada a projeto aprovado, não desembolso.

A diferença aparece no maior item da lista. O Exim emitiu um term sheet indicativo e não vinculante de até US$ 6 bilhões para o Argentina LNG, o projeto integrado de gás natural liquefeito de US$ 51 bilhões em Vaca Muerta, liderado pela YPF com a italiana Eni e a emiradense XRG. O dinheiro americano é destinado à compra de bens e serviços americanos: o documento cita nominalmente o contrato da McDermott para a planta de fracionamento e tratamento de gás e o contrato acima de US$ 1 bilhão da Pumpco, subsidiária da MasTec, com a Bonatti e a Contreras Hnos., para o sistema de dutos de exportação. Esse último ainda depende de decisão final de investimento.

Tabela com os seis projetos do Corredor Andes-Atlântico, seus valores e as empresas e bancos envolvidos
Os valores da ficha técnica somam muito mais que os US$ 7 bilhões do anúncio, mas vêm de fontes diferentesArte: Resenhando, com dados do Departamento de Estado dos EUA

O padrão se repete no resto da carteira. A concessão de transmissão de alta tensão AMBA 1, de cerca de US$ 800 milhões, foi lançada pela Argentina em agosto com garantia de empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento e vai atender Buenos Aires, que responde por quase 60% da demanda elétrica do país. A concessão de 25 anos da Hidrovia, arrematada em junho pelo consórcio belga-argentino Vía Navegable Troncal, tem investimento estimado em US$ 10 bilhões. A modernização da fibra ótica da estatal Arsat tem US$ 49 milhões do BID na primeira fase.

Como a conta chega ao Brasil

Nada disso é neutro para o Brasil. As três ferrovias de carga que a Argentina colocou em licitação em agosto, por concessões de 50 anos, são a Belgrano, a San Martín e a Urquiza, e existem para baratear o transporte de lítio, cobre e grãos até os portos. A Hidrovia é a mesma via de navegação que escoa parte da produção do Mercosul. O documento americano diz, com todas as letras, que a preparação das transações vai excluir atores não de mercado e usar tecnologia confiável, fórmula que o governo dos Estados Unidos aplica à China em disputas de infraestrutura.

O texto conjunto também invoca o Marco de Minerais Críticos entre os dois países e o artigo 3.2 do acordo bilateral de comércio e investimento.

O calendário já está marcado. Uma delegação americana do Departamento de Estado, da DFC e do Exim viaja a Buenos Aires, Jujuy e Salta em outubro para identificar transações. Landau vai à Argentina ainda neste mês. E os dois governos combinaram levar o responsável pela Agência de Transformação de Empresas Públicas argentina a Nova York e a Washington nos dias 9 e 10 de dezembro.

O pano de fundo é menos animador que o anúncio. Segundo o Indec, a pobreza na Argentina subiu a 32,3% no primeiro semestre de 2026, contra 28,2% no semestre anterior, o que apagou um ano de queda. O governo de Javier Milei chega às eleições legislativas com a conta da estabilização ainda aberta, e a política externa argentina tem sido usada como ativo doméstico, como no caso das medidas sobre as Malvinas, quando o presidente negou motivação eleitoral.

A Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires publicou o comunicado conjunto na íntegra. A Casa Rosada não divulgou estimativa própria de desembolso nem cronograma de obra até a publicação desta matéria.

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