Flávio culpa Lula por crise com a Argentina e promete virada em 2027
Senador reagiu ao rebaixamento da representação diplomática brasileira em Buenos Aires ao nível de encarregado de negócios
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, atribuiu ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a responsabilidade pela crise diplomática com a Argentina, em nota divulgada na quinta-feira (6). A manifestação veio depois de o Itamaraty rebaixar o nível da representação brasileira em Buenos Aires.
Na avaliação do senador, o desgaste com o país vizinho poderia ter sido evitado. "Romper com Buenos Aires não é um fato inevitável: é o resultado direto de uma política externa ideologizada e confrontacionista, que em poucos meses fabricou crises com 3 países da nossa região", afirmou.
Flávio também escreveu que "a soberania e o prestígio do Brasil não se protegem com bravatas eleitoreiras e rompimentos diplomáticos" e prometeu revisão do rumo caso vença a eleição de outubro: "A partir de 2027, voltaremos a tratar nossos vizinhos como parceiros, não como adversários ideológicos".
O que o Itamaraty decidiu
O governo brasileiro anunciou a redução do nível das relações diplomáticas com a Argentina. O embaixador Julio Bitelli foi convocado a Brasília em 26 de julho e não deve retornar ao posto enquanto as agressões continuarem. O Brasil passa a ser representado em Buenos Aires pelo ministro-conselheiro Eduardo Uziel, na condição de encarregado de negócios, cargo de hierarquia inferior à de embaixador.
O Itamaraty justificou a medida com base em declarações do presidente argentino, Javier Milei. Em nota, o ministério afirmou não haver "precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro".
As declarações citadas foram feitas em 26 de julho, durante convenção do PL, quando Milei chamou Lula de "presidiário" e atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O governo brasileiro sustentou que "mantém relações diplomáticas com governos de todos os perfis ideológicos" e apontou as ofensas como razão do rebaixamento.
Comércio bilateral no centro do argumento
Na nota, Flávio classificou a Argentina como "nação irmã" e maior parceiro comercial do Brasil na América do Sul, e apontou como principais prejudicados pela crise os produtores rurais, industriais, exportadores e trabalhadores que dependem do comércio bilateral.
O senador dirigiu ainda uma mensagem direta ao presidente argentino, a quem chamou de amigo, e afirmou que a crise não opõe as duas nações, mas decorre da ação do governo brasileiro atual.
A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás de China e Estados Unidos, e o principal destino das exportações brasileiras de manufaturados, com peso relevante nos setores automotivo, químico e de máquinas. O Mercosul, do qual os dois países são sócios fundadores, tem reuniões previstas no segundo semestre.
O governo não respondeu publicamente à nota do senador. A posição oficial em relação à Argentina permanece a que foi divulgada pelo Itamaraty ao anunciar o rebaixamento, que condiciona a normalização do canal diplomático ao fim das ofensas.
A crise se soma a outro front externo aberto neste ano, o do comércio com os Estados Unidos, e entrou na disputa presidencial em pleno prazo de registro de candidaturas, que se encerra em 15 de agosto. A política externa aparece como tema de confronto entre o governo e a oposição em um ano em que a pauta econômica domina a campanha.
Pela regra do calendário eleitoral, os pedidos de registro devem ser apresentados até as 19h de 15 de agosto, pelo Sistema de Candidaturas da Justiça Eleitoral. A propaganda eleitoral começa no dia seguinte, e o primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Milei e Flávio Bolsonaro mantêm proximidade política. O presidente argentino participou da convenção do PL em julho, evento que originou as declarações citadas pelo Itamaraty na decisão de rebaixar a representação diplomática.