Indústria brasileira cai do 28º para o 62º lugar em ranking mundial de crescimento
Análise do Iedi com dados da ONU compara o segundo trimestre de 2024 ao de 2026: manufatura global cresceu 7,6%, a do Brasil, 0,84%
A indústria de transformação do Brasil caiu do 28º para o 62º lugar entre os países que mais ampliaram a produção em dois anos, segundo análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) revelada pela Folha de S.Paulo neste domingo, 25. A base é o levantamento da Unido, a agência da ONU para o desenvolvimento industrial.
A comparação é entre o segundo trimestre de 2024 e o mesmo período de 2026. Nesse intervalo, a produção manufatureira mundial subiu 7,6%. A brasileira avançou 0,84%. No fim de 2025, o país chegou a ocupar o 75º lugar e recuperou algumas posições nos trimestres seguintes.
O economista-chefe do Iedi, Rafael Cagnin, liga a queda à Selic. Os juros básicos começaram a subir em setembro de 2024, quando estavam em 10,50% ao ano, e chegaram a 15% em junho de 2025, patamar mantido até o início deste ano. A taxa está hoje em 13,75%, em ciclo de cortes desde março.
“A taxa de juros é um condicionante poderoso da produção industrial. A indústria é muito sensível a ela porque produz bens duráveis, onde a demanda depende do patamar da Selic, e depende também de crédito para investir”, afirmou Cagnin à Folha.
O que o Iedi mediu em agosto
Os números mais recentes da própria entidade estão na Carta Iedi 1381, de 19 de outubro. Em agosto, a produção industrial brasileira recuou 0,6% sobre julho, já descontados os efeitos sazonais, e ficou 1,2% abaixo de agosto de 2025. Nos últimos quatro meses, o setor não cresceu. Segundo o Iedi, 64% dos ramos ficaram no vermelho.
Os bens de capital, que incluem máquinas e equipamentos, formam o pior caso. Caíram 4,1% em agosto na comparação anual e acumulam queda de 5,3% no ano até agosto, depois de recuar 1,7% em 2025. Em 2024 tinham crescido 9%. Os bens de consumo duráveis subiram 2,1% no acumulado de 2026, contra 10,7% em 2024.
No segundo trimestre, a indústria cresceu 0,5% sobre igual período de 2025, após três trimestres seguidos de queda anual. A manufatura mundial avançou 3,7% na mesma comparação, ritmo sete vezes maior.
Na carta, a entidade cita o abate de carnes, com retração de 13,3% em julho e agosto frente ao mesmo bimestre de 2025. O Iedi atribui o resultado ao fim da cota de importação de carne bovina brasileira pela China e ao embargo europeu por razões sanitárias, em vigor desde setembro.
Custo, juros e o que vem pela frente
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o problema vai além dos juros. “O problema estrutural da indústria é o custo elevado em praticamente todos os itens que compõem sua produção”, disse. Ele cita o custo Brasil, os encargos trabalhistas e a energia, e lembra que a economia brasileira é uma das mais fechadas do mundo, o que afasta o país das cadeias globais.
Vale defende mais acordos comerciais com países ricos, como o em negociação com a União Europeia, e redução dos custos de produção.
Cagnin vê os próximos meses ainda restritivos. Segundo ele, o endividamento de famílias e empresas e a incerteza eleitoral pesam sobre os setores que dependem de confiança para investir. “A indústria reage, mas o suficiente apenas para estancar a queda”, afirmou. Para 2027, ele espera nova desaceleração, e o resultado dependerá da estratégia econômica do próximo governo e do ritmo de queda dos juros.
O Resenhando já mostrou que a inflação em 12 meses segue em 4,62%, acima do teto da meta, e que o governo abriu crédito extraordinário de R$ 6,5 bilhões para exportadoras. O próximo dado oficial da indústria é a pesquisa mensal do IBGE referente a setembro.