Economia

IFI: promessas de Lula somam R$ 40 bi sem Orçamento e exigem ajuste de 3% do PIB

IFI estima R$ 40 bi não orçados em Bolsa Família, bets e MEIs e ajuste de 3 pontos do PIB; relatório de outubro vê déficit de 1% em 2027.

Neste texto3 tópicos
  1. O que o relatório projeta para 2026 e 2027
  2. A despesa que a meta de resultado primário não mostra
  3. Juro neutro mais alto, dívida mais cara

A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão do Senado Federal, calcula que três medidas anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na campanha, o reajuste do Bolsa Família, a perda de arrecadação com as bets e o pacote para microempreendedores individuais (MEIs), somam R$ 40 bilhões de desequilíbrio adicional que não está no Orçamento. O número consta do Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de outubro, divulgado nesta quinta-feira, 29.

A conta ainda deixa de fora o Pé-de-Meia para o ensino superior e a isenção de tarifa de transporte coletivo nos fins de semana, duas promessas feitas para valer a partir de 2027.

O que o relatório projeta para 2026 e 2027

A IFI trabalha com déficit primário de 0,5% do PIB neste ano. Para 2027, o cenário muda de figura: com os novos compromissos e as divergências da instituição em relação aos números do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, o déficit efetivo potencial chega a 1,0% do PIB. As divergências foram detalhadas no RAF nº 116, de setembro.

Para estabilizar a relação entre dívida pública e PIB, a IFI estima ser preciso um superávit primário de 2,1% do PIB. A distância entre esse patamar e o déficit projetado resulta num ajuste fiscal de cerca de 3 pontos percentuais do PIB, segundo os diretores Marcus Pestana e Alexandre Andrade.

O texto de abertura do relatório, assinado pelos dois, pede ao próximo governo que enfrente o que chamam de "nó górdio" formado por desequilíbrio fiscal, pressão inflacionária, juros altos e crescimento baixo. A instituição também cobra o anúncio, o mais rápido possível, de um plano para os próximos quatro anos e a definição de quem comandará o Ministério da Fazenda, depois da volatilidade nos mercados de capitais, câmbio e juros futuros nos dias seguintes à reeleição de Lula.

A IFI observa que, com Lula reeleito, não espera mudanças bruscas na política econômica. No plano fiscal, a expectativa é de manutenção da estratégia gradualista de ajuste, com pequenas correções.

A despesa que a meta de resultado primário não mostra

O relatório chama atenção para um ponto que a verificação da meta fiscal não captura. Os pagamentos da União com crédito concedido a partir de recursos do Orçamento, contabilizados como despesa financeira e não como primária, passaram de R$ 71,7 bilhões em 2023 para R$ 220,3 bilhões em 2026, até outubro. A maior parte foi financiada com superávits de fundos e receitas vinculadas.

Descontados os retornos ao Tesouro, a saída líquida de recursos foi de R$ 147,7 bilhões em 2025, o equivalente a 1,2% do PIB, e chegou a R$ 180,5 bilhões em 2026, também até outubro.

Esse volume de crédito fica fora do número que o governo precisa cumprir.

Juro neutro mais alto, dívida mais cara

O RAF traz ainda estimativas para a taxa de juros real neutra, o patamar que não aquece nem esfria a economia. As abordagens testadas apontam mediana de 6,1% ao ano, acima dos 5,0% que a IFI usava como referência. Mantidas as demais hipóteses, o resultado primário necessário para estabilizar a dívida sobe para 2,9% do PIB ao fim do horizonte de projeção.

Quando a incerteza em torno do juro neutro entra na conta, a probabilidade de a dívida superar 90% do PIB até 2030 passa de 78,5% para 82,1%.

O Ministério da Fazenda não aparece no documento, e a reportagem não localizou manifestação do governo sobre o relatório até a publicação. O Resenhando já havia noticiado a estimativa da IFI de que o pacote eleitoral chega a R$ 290 bilhões e o relatório de setembro, com déficit de R$ 86,1 bilhões. O PLOA de 2027, cujos números a IFI contesta, segue em tramitação no Congresso.

Fonte: nota da IFI no site do Senado Federal e Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 117, de outubro de 2026; informação também publicada pelo Estadão Conteúdo.