Greenwald: sigilo de fonte não foi violado na Vaza Jato
Jornalista critica decisão de Moraes que levou à identificação da fonte de reportagem sobre carros oficiais usados por Flávio Dino no Maranhão
O jornalista Glenn Greenwald afirmou nesta quarta-feira, 12, que o sigilo das suas fontes não foi violado durante a Vaza Jato e criticou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes que levou à identificação da fonte de uma reportagem sobre o uso de veículos oficiais pelo ministro Flávio Dino.
Greenwald fundou o site The Intercept Brasil e comandou a série de reportagens de 2019 baseada em mensagens trocadas por procuradores da Operação Lava Jato e pelo então juiz Sergio Moro.
A investigação sob relatoria de Moraes apontou o ex-secretário do governo do Maranhão Raimundo Cutrim como a fonte do jornalista Luís Pablo, autor de reportagens sobre o uso de carros oficiais por Dino e por familiares no estado. O repórter já havia sido alvo de busca e apreensão em março.
Depois da extração de dados dos aparelhos apreendidos, a polícia concluiu que Cutrim repassara as informações. O advogado do jornalista também foi alvo de medida de busca e apreensão.
O que disse Greenwald
Em publicação nas redes sociais, Greenwald comparou os dois momentos.
Apesar de tudo o que se disse sobre os abusos de Sergio Moro e Bolsonaro durante a Vaza Jato, ninguém jamais tentou investigar os jornalistas para descobrir nossas fontes
Glenn Greenwald, jornalista
Ele acrescentou que os aliados de Moro no Ministério Público Federal tentaram processá-lo depois, sem sucesso, mas nunca violaram o sigilo constitucional da fonte jornalística. Segundo o jornalista, a esquerda brasileira agora aplaude, praticamente em uníssono, enquanto Moraes viola esse direito.
Em janeiro de 2020, o MPF apresentou denúncia contra Greenwald por suposta participação em invasão de dispositivos ligada à obtenção das mensagens. Pelo relato do próprio jornalista, a tentativa não prosperou.
Como a decisão repercutiu
Entidades ligadas à imprensa e especialistas em liberdade de expressão questionaram a investigação, apontando possível violação do sigilo da fonte, protegido pelo artigo 5º, inciso XIV, da Constituição, que assegura o acesso à informação e resguarda o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional.
O presidente do STF, Edson Fachin, fez defesa da liberdade de imprensa e afirmou que a Corte respeita o direito dos jornalistas ao sigilo da fonte. A decisão deve ser analisada pelo colegiado do Supremo.
A Sociedade Interamericana de Imprensa também divulgou nota sobre o caso de Luís Pablo, no mesmo dia da manifestação de Greenwald. No Congresso, o senador Flávio Bolsonaro criticou a busca e apreensão contra a fonte do jornalista no Maranhão.
A convergência é o dado político do episódio. Greenwald construiu a carreira no campo da esquerda e foi o principal alvo da direita durante a Vaza Jato. Sete anos depois, ele e parlamentares bolsonaristas fazem a mesma leitura sobre o mesmo ato do Supremo, ainda que por razões distintas.
O caso do Maranhão tem duas camadas que a discussão pública tende a misturar. Uma é o dever funcional do servidor que repassa documento sob sigilo, sujeito a responsabilização administrativa e penal. A outra é o alcance da proteção constitucional, que resguarda a fonte justamente para viabilizar a divulgação. Quando a identificação chega por dentro do celular do repórter, as duas camadas se encontram, e é aí que reside a controvérsia jurídica.
Os pontos em disputa:
- Busca e apreensão contra o jornalista Luís Pablo em março de 2026
- Extração de dados dos aparelhos apreendidos e identificação da fonte
- Busca e apreensão contra Raimundo Cutrim, apontado como a fonte
- Medida também dirigida ao advogado do jornalista
- Reportagens tratavam do uso de veículos oficiais por Flávio Dino e familiares no Maranhão
Nem o gabinete de Moraes nem o ministro Flávio Dino se manifestaram publicamente sobre as declarações de Greenwald até a publicação desta reportagem. A defesa de Raimundo Cutrim afirmou preocupação com a exposição de uma fonte jornalística e invocou a proteção constitucional da liberdade de imprensa.