Operação mira lavagem de R$ 11 milhões do Comando Vermelho no Rio
Polícia Civil do Rio investiga uso de clube recreativo na zona norte e de pousada em Armação dos Búzios para ocultar dinheiro do tráfico
A Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) deflagrou nesta terça-feira, 4, a Operação Quimera, que investiga esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico e que teria movimentado mais de R$ 11 milhões por meio de um clube recreativo na zona norte da capital e de uma pousada em Armação dos Búzios, na Região dos Lagos.
As investigações começaram depois que dirigentes do Clube Social Marabu, no bairro do Encantado, relataram extorsão e ameaças feitas por lideranças do Morro do Dezoito. Com o avanço da apuração, os agentes identificaram o mesmo método aplicado no Várzea Country Club, em Água Santa.
Segundo a investigação, o grupo exigia o controle da entidade e o pagamento recorrente de R$ 6 mil para permitir que o espaço funcionasse sem retaliação. A tomada da administração dava ao grupo acesso ao caixa das agremiações.
O caminho do dinheiro
Relatórios de inteligência financeira analisados pelos investigadores apontam circulação intensa de recursos entre familiares, empresas e pessoas físicas. As movimentações se davam por depósitos em espécie, transferências bancárias e operações fracionadas via Pix, características que a apuração associa a ocultação patrimonial.
Até agora foram apreendidos motocicletas, máquinas de cartão, documentos e cadernos administrativos com o fluxo financeiro das entidades. O material deve permitir reconstituir a contabilidade paralela e identificar os beneficiários finais dos valores.
A Operação Quimera integra a Operação Contenção, ofensiva do governo estadual voltada a conter o avanço territorial do Comando Vermelho. A linha de atuação combina ações contra pontos de venda de drogas e apurações patrimoniais, com foco na estrutura econômica das facções.
O que dizem os envolvidos
A reportagem não localizou defesa constituída para os investigados até a publicação. As entidades citadas na apuração, o Clube Social Marabu e o Várzea Country Club, não se manifestaram sobre o inquérito.
A tomada de agremiações esportivas e de estabelecimentos de hospedagem por grupos armados aparece com frequência nas apurações recentes no Rio. O interesse não é apenas o caixa: entidades com movimentação em dinheiro vivo e cadastro regular oferecem justificativa formal para recursos de origem ilícita.
O padrão descrito na investigação segue três etapas. Primeiro vem a coação sobre a diretoria, com ameaça e cobrança periódica pelo direito de funcionar. Depois, a substituição do comando da entidade por pessoas ligadas ao grupo. Por fim, a entrada do dinheiro do tráfico no caixa, misturado à receita legítima de mensalidades, eventos e diárias.
O uso do Pix em operações fracionadas é o ponto que mais aparece nos relatórios financeiros. A divisão de um valor alto em várias transferências menores busca escapar dos limites que disparam comunicação automática ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras, e é justamente o padrão de fracionamento que os sistemas de monitoramento sinalizam.
O enquadramento legal
A lavagem de dinheiro é tipificada na Lei 9.613, de 1998, com pena de reclusão de três a dez anos e multa. A pena pode ser aumentada quando o crime é praticado de forma reiterada ou por organização criminosa, hipótese que a apuração no Rio considera diante do vínculo apontado com o Comando Vermelho.
A extorsão relatada pelos dirigentes do clube tem pena própria, de quatro a dez anos, e o concurso de crimes é definido na denúncia. O rastreamento patrimonial iniciado pela Polícia Civil pode levar ao bloqueio de bens antes mesmo do fim do processo, medida cautelar prevista na mesma legislação.
Os investigados respondem por lavagem de dinheiro, extorsão e associação criminosa, e permanecem sem denúncia formal apresentada pelo Ministério Público até o momento. Informações sobre a operação foram divulgadas pela PCERJ e replicadas pela CNN Brasil e pelo Metrópoles.
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