Cimi registra 258 indígenas assassinados em 2025, alta de 22%
Relatório aponta Roraima, Amazonas e Mato Grosso do Sul como os estados com mais casos e associa a violência à pendência na regularização de 897 terras
O Conselho Indigenista Missionário, o Cimi, divulgou nesta quinta-feira (13) o relatório "Violência contra os Povos Indígenas no Brasil" referente a 2025, com o registro de 258 assassinatos de indígenas no país. O número representa alta de cerca de 22% sobre os 211 casos contabilizados em 2024.
Os assassinatos se concentraram em três estados. Roraima aparece com 82 casos, seguido do Amazonas, com 47, e de Mato Grosso do Sul, com 37. Juntos, os três respondem por 166 das 258 mortes, quase dois terços do total nacional.
O levantamento também aponta 215 suicídios entre indígenas em 2025, contra 208 no ano anterior, e 1.024 óbitos de crianças de até quatro anos, alta de 11% sobre os 922 registrados em 2024. Amazonas, Roraima e Mato Grosso concentram os maiores números de mortalidade infantil.
O que o relatório associa à violência
O Cimi vincula o cenário à insegurança territorial, categoria que a entidade usa para descrever conflitos fundiários, invasões e impasses na demarcação. Nessa frente, o relatório contabiliza 1.276 casos de violência contra o patrimônio indígena em 2025.
A maior parte desse total não decorre de ação direta de terceiros, e sim de inação do poder público. São 897 casos classificados como omissão na regularização de terras. Outros 210 se referem a invasões e exploração ilegal de recursos, e 169 a conflitos relativos a direitos territoriais.
O número de 897 tem outro significado no documento: é a quantidade de terras indígenas ainda pendentes de regularização, de um universo de 1.443 áreas existentes no país. Significa que quase 62% das terras indígenas identificadas seguem sem o processo administrativo concluído.
A demarcação é atribuição do Executivo federal e depende de etapas que passam pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Funai, pelo Ministério da Justiça e pela homologação por decreto presidencial. Cada fase tem prazo próprio, e processos parados entre uma etapa e outra são o que o relatório classifica como omissão.
O tema também está judicializado. A Lei 14.701, de 2023, que fixou o marco temporal para o reconhecimento de terras indígenas, foi aprovada pelo Congresso, sancionada com vetos e teve os vetos derrubados pelos parlamentares. O texto é alvo de ações no Supremo Tribunal Federal, que abriu uma câmara de conciliação para tratar do impasse entre produtores rurais, governo e comunidades indígenas. Enquanto a discussão não se encerra, novos processos de demarcação avançam com insegurança jurídica sobre o resultado final.
Como os dados são apurados
O Cimi é um organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, e publica o relatório anualmente desde a década de 1990. Os números são reunidos a partir de registros das equipes da entidade em campo, de boletins de ocorrência, de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade e de informações repassadas por lideranças e organizações indígenas.
A série histórica mostra alta em anos consecutivos. Em 2024, o mesmo levantamento havia registrado 211 assassinatos, número que já representava crescimento sobre o ano anterior. O lançamento da edição de 2025 foi anunciado pela CNBB e ocorreu nesta quinta-feira.
Essa metodologia produz séries que nem sempre coincidem com os registros oficiais de segurança pública, já que parte dos casos ocorre em áreas com baixa presença de delegacias e sub-registro. O próprio conselho reconhece a limitação ao tratar os dados como recorte do que foi possível documentar.
A Funai e o Ministério dos Povos Indígenas não constam com manifestação no material divulgado pelo Cimi nesta quinta-feira. A Agência Brasil, que noticiou o lançamento, também não registra resposta dos dois órgãos.
No Congresso, a pauta indígena avança pelo caminho oposto ao do relatório, com propostas que buscam sustar demarcações em andamento. Veja o projeto que susta a demarcação de terras em Santa Catarina.