Comissão inclui indígena e quilombola na lei da agricultura familiar
PL 2845/25 abre acesso a crédito rural e a compras públicas; texto perdeu o caráter conclusivo e vai ao Plenário
A Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que reconhece povos indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais como agricultores familiares. A decisão foi divulgada pela Agência Câmara em 9 de setembro.
O colegiado acolheu o substitutivo da relatora, deputada Célia Xakriabá (PSOL-MG), ao Projeto de Lei 2845/25, do deputado Defensor Stélio Dener (União-RR). O texto aprovado ampliou a versão original, que tratava apenas dos povos indígenas.
O que o reconhecimento destrava
Com a mudança, esses grupos passam a ter acesso a um conjunto de políticas hoje condicionadas ao enquadramento como agricultor familiar.
- crédito rural, incluídas as linhas do Pronaf;
- assistência técnica e extensão rural;
- políticas de comercialização da produção;
- programas de compras governamentais.
O texto também exige que uma parcela mínima da renda da comunidade venha da atividade desenvolvida pelo estabelecimento ou empreendimento. O percentual será definido pelo governo federal, o que transfere ao Executivo a régua que delimita quem entra e quem fica de fora.
O argumento da relatora
Célia Xakriabá sustentou que esses povos já estão incluídos na Lei da Agricultura Familiar, a Lei 11.326, de 2006, mas que alguns critérios travam na prática o acesso às políticas públicas da área.
"A imposição de condicionantes termina por inviabilizar sua classificação como agricultores familiares para fins de políticas públicas", observou a deputada.
O parecer registra que os povos indígenas desenvolvem sistemas produtivos que combinam agricultura, extrativismo, manejo florestal e conservação ambiental, e que essas atividades sustentam a segurança alimentar das comunidades e a manutenção de variedades tradicionais de sementes. A relatora citou ainda o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar, que já identifica o pertencimento a povos e comunidades tradicionais por autodeclaração.
Como fica a tramitação
O projeto segue agora para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Por ter recebido pareceres divergentes das comissões responsáveis pelo mérito, a proposta perdeu o caráter conclusivo e terá de ser votada também pelo Plenário da Câmara antes de seguir ao Senado.
A reportagem da Agência Câmara não traz estimativa de quantas famílias passariam a ser alcançadas pela mudança nem cálculo do impacto sobre a demanda por crédito do Pronaf. Sem esse número, não é possível dimensionar quanto o reconhecimento custaria ao programa, que recebeu neste ano crédito extraordinário de R$ 375 milhões aberto por medida provisória.
A discussão sobre a fonte de recursos para atender um público maior deve se concentrar na CCJ e, depois, no Plenário.