EUA marcam nova rodada entre Israel e Líbano para setembro em Roma
Departamento de Estado confirma encontro no início do mês; acordo-quadro de junho prevê avanço do Exército libanês em zonas-piloto e esbarra no desarmamento do Hezbollah
Os Estados Unidos vão sediar em Roma, no início de setembro, uma nova rodada de conversações entre Israel e Líbano, segundo anúncio feito por um funcionário do Departamento de Estado americano na terça-feira, 11. Washington atua como mediador do diálogo entre os dois países, que seguem tecnicamente em estado de guerra.
Enquanto a rodada de Roma não ocorre, as tratativas continuam em Beirute, Jerusalém e Washington, informou o mesmo funcionário.
A negociação se apoia em um acordo-quadro assinado no fim de junho. O texto prevê o deslocamento do Exército libanês para zonas-piloto evacuadas por Israel, que ainda ocupa parte do sul do território libanês, e condiciona o avanço ao desarmamento do Hezbollah.
O que já saiu do papel
As primeiras zonas-piloto estão operacionais, e os grupos de trabalho harmonizaram terminologia, mapas e procedimentos, de acordo com o relato da sétima sessão de conversações, também realizada em Roma.
A escolha da capital italiana como sede não é nova. Roma vem concentrando as reuniões técnicas do processo, formato que mantém as delegações fora do terreno onde a tensão militar persiste.
O ponto que trava o restante do cronograma é o desarmamento do Hezbollah. O grupo xiita libanês mantém arsenal próprio e resiste à entrega de armamento ao Estado libanês, condição que Israel apresenta como pré-requisito para novas retiradas.
O estado atual do processo:
- Acordo-quadro assinado no fim de junho de 2026
- Sete sessões de conversações já realizadas, com Roma como sede recorrente
- Primeiras zonas-piloto operacionais, com entrada do Exército libanês
- Israel mantém ocupação de parte do sul do Líbano
- Nova rodada marcada para o início de setembro, em Roma
- Canais paralelos ativos em Beirute, Jerusalém e Washington
Por que isso interessa ao Brasil
O Brasil abriga a maior comunidade de origem libanesa fora do Líbano, e o fluxo entre os dois países é antigo. Uma escalada no sul libanês atinge famílias brasileiras com residência ou negócios na região e pressiona o preço do petróleo, que reage a qualquer conflito no Oriente Médio.
O país mantém embaixada em Beirute e integra a Força Interina das Nações Unidas no Líbano, a Unifil. A Marinha do Brasil assumiu o comando da Força-Tarefa Marítima da missão em 2011 e o exerceu por mais de uma década.
A negociação com o Líbano avança enquanto Gaza trava
O contraste entre as duas frentes do Oriente Médio é o dado que organiza o momento. Na trilha libanesa, existe acordo-quadro assinado, sessões técnicas em sequência e zonas-piloto em operação. Na trilha palestina, o governo de Benjamin Netanyahu rejeitou em 9 de agosto o plano de 15 pontos apresentado pelos Estados Unidos para Gaza, com o desarme do Hamas entre os pontos de impasse.
O denominador comum das duas mesas é o mesmo: desarmar um grupo armado que atua dentro de um território sem controle pleno do Estado formal. É a exigência que Israel repete em Beirute e em Gaza, e é onde os dois processos emperram.
Washington também articula um conselho da paz ligado ao desarmamento do Hamas, iniciativa que corre em paralelo às conversações libanesas.
O que está em jogo para o Estado libanês
Para o governo libanês, o avanço do Exército nas zonas evacuadas é mais do que uma medida de segurança. É a tentativa de recuperar o monopólio do uso da força em um território onde o Hezbollah exerce autoridade paralela há décadas, com estrutura militar, rede de assistência social e representação parlamentar.
Israel, por sua vez, condiciona a retirada do que resta da ocupação no sul à demonstração de que essa autoridade foi de fato transferida. Nenhum dos dois lados aceita mover primeiro, e é essa a razão pela qual o formato adotado avança por zonas-piloto, em incrementos pequenos e verificáveis.
Nem o governo israelense nem o governo libanês divulgaram nota sobre a data anunciada pelo Departamento de Estado até a publicação desta reportagem. Também não houve confirmação oficial da composição das delegações que irão a Roma.