'Lula vive um efeito Biden', diz especialista americana no PT
Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas, aponta déficit de entusiasmo e mudança geracional de valores no eleitorado brasileiro a dois meses do primeiro turno
A cientista política Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas, em Austin, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega às eleições de outubro sob o que ela chama de efeito Biden: uma economia que, nos números, não vai mal, combinada a um eleitorado sem entusiasmo. A avaliação foi dada em entrevista à BBC News Brasil publicada nesta segunda-feira, 3 de agosto, e reproduzida pelo Correio Braziliense.
Hunter é uma das principais pesquisadoras estrangeiras do Partido dos Trabalhadores. Escreveu The Transformation of the Workers' Party in Brazil, 1989-2009 e assina, com Timothy Power, da Universidade de Oxford, o artigo Lula's Second Act, publicado no Journal of Democracy em 2023. Veio ao Brasil pela primeira vez em 1988, para a pesquisa de doutorado.
"Se você olha os principais indicadores econômicos e boa parte dos critérios objetivos, o Brasil não está indo mal. Mas há muito pouco entusiasmo por ele", disse. "Me lembra um pouco Joe Biden. A economia sob Biden não foi ruim, considerando que ele herdou o legado da pandemia. E as pessoas ficavam arrumando pequenas queixas. Sabemos como aquilo acabou."
Ela usa o termo malaise para descrever o clima. "Essa será uma eleição muito disputada, e se Lula quiser vencer, essas pessoas têm que ir às urnas. Há um déficit de entusiasmo. Tanto malaise, tanto malaise", afirmou, ao lembrar que, mesmo com voto obrigatório, uma parcela considerável do eleitorado não compareceu na última eleição, sobretudo idosos e pobres.
A mudança geracional que a professora diz não estar sendo captada
Para Hunter, o dado menos coberto da corrida é a troca de valores entre os mais jovens. "Pessoas da nossa geração tendem a pensar no PT como um partido jovem, novo, cheio de energia. Não é mais assim. Os jovens não o veem assim", disse.
A professora relatou grupos focais que conduziu neste ano. "Quando fui à escola de pós-graduação, e ainda décadas depois, todo mundo queria a carteira de trabalho, com CLT, emprego estável, décimo terceiro, aposentadoria. Isso era o marcador da cidadania. Hoje, quando converso com jovens, muitos deles não têm nenhum interesse nisso. Querem flexibilidade, querem ser autônomos, querem ser empreendedores, querem dirigir Uber."
Ela citou uma conversa com um motorista de aplicativo em Brasília, que trabalhava cerca de 12 horas por dia e defendeu a própria autonomia. "Sem décimo terceiro, sem aposentadoria, mas ele acredita na autonomia. Esse eleitor provavelmente vota à direita", afirmou. "Muitos jornalistas e cientistas políticos não estão captando essa mudança."
As contas que Hunter faz para a terceira via
Questionada sobre espaço para um terceiro nome, com Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em índices de rejeição próximos de 50%, ela respondeu que a aritmética não fecha. "Lula tem um certo nível de apoio que deve colocá-lo como favorito, ou pelo menos segundo colocado, no primeiro turno. E Flávio tem garantidos uns 25% do eleitorado."
O nome seguinte, na avaliação dela, seria o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, "em algo como 5%". "Algumas pesquisas mostram que, se alguém como Caiado chegasse ao segundo turno, iria muito bem. Mas ele não consegue superar os 20, 25% garantidos de Flávio. Matematicamente, não vejo como uma terceira via se viabiliza."
Sobre o presidente, a professora resumiu: "Lula é muito pragmático. No fundo, é um materialista." A entrevista completa foi publicada pela BBC News Brasil.