Economia

Durigan espera retomar a diplomacia normal com os EUA depois da eleição

Ministro da Fazenda diz que a Lei da Reciprocidade não atrapalha a negociação e que o governo age com cautela

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que espera a retomada do curso normal da relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos depois das eleições de outubro. A declaração foi dada a jornalistas na quarta-feira, 19 de agosto, seis dias depois de o governo brasileiro abrir o processo que enquadra as tarifas americanas na Lei da Reciprocidade Econômica.

"Passada a eventual tentativa de interferência, que a gente possa retomar o curso normal da diplomacia", disse o ministro, em fala reproduzida pelo Jornal do Comércio. Durigan avalia que a abertura do processo de reciprocidade não prejudica a negociação em curso. "Ela pode só ajudar, até porque nós vamos fazer um processo de reciprocidade com cautela", afirmou.

Na mesma rodada de declarações, registrada pelo Metrópoles, o ministro repetiu que o governo mantém o canal aberto com Washington. "A disposição por negociação é completa do nosso lado, toda oportunidade que nós temos, nós temos feito esse gesto de falar, o próprio presidente Lula disse que falaria com o presidente [dos EUA, Donald] Trump e estamos sempre muito prontos", declarou.

Durigan assumiu o Ministério da Fazenda em março de 2026, no lugar de Fernando Haddad (PT), que deixou o cargo para disputar as eleições de outubro. É a primeira vez que o ministro associa publicamente o desfecho da disputa comercial ao calendário eleitoral brasileiro.

O que o governo abriu na Camex

Em nota divulgada em 13 de agosto, o governo informou ter dado início à análise de pleito ordinário de enquadramento, sob a Lei da Reciprocidade Econômica (Lei 15.122/2025), das medidas unilaterais adotadas pelos Estados Unidos no âmbito da Seção 301 da lei de comércio americana. Pelo rito previsto no Decreto 12.551/2025, a Secretaria-Executiva da Camex compartilhou o pleito com os demais membros do Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior.

A abertura do processo não aplica contratarifa. Nesta primeira etapa, o governo brasileiro pede consultas diplomáticas ao governo americano para tentar reduzir ou eliminar os efeitos das medidas de Washington e das eventuais contramedidas previstas na legislação brasileira. A tarifa em discussão chega a 37,5% sobre produtos brasileiros.

  • Base legal: Lei 15.122/2025, aprovada pelo Congresso em 2025, e Decreto 12.551/2025
  • 13 de agosto: a Camex compartilha o pleito de enquadramento com o Comitê Executivo de Gestão
  • Etapa atual: pedido de consultas diplomáticas aos Estados Unidos
  • Tarifa em discussão: até 37,5% sobre produtos brasileiros, pela Seção 301

O passo seguinte previsto na lei é a decisão da Camex sobre enquadrar ou não as medidas americanas. Só depois disso o governo teria autorização para propor contramedidas, que podem incluir tarifas sobre produtos importados dos Estados Unidos e restrições em propriedade intelectual. O governo não anunciou prazo para essa etapa.

O que dizem os empresários

O setor privado que exporta para os Estados Unidos pediu contenção. Como o Resenhando publicou em 14 de agosto, a Amcham Brasil defendeu que o governo evite aplicar a reciprocidade, sob o argumento de que as contramedidas encarecem insumos e atingem as próprias empresas brasileiras. A abertura do processo pela Camex foi noticiada pelo portal em 13 de agosto.

Durigan afirmou que o governo vai ouvir os setores atingidos antes de qualquer decisão, e é essa consulta que sustenta a expressão "cautela" usada por ele. Até esta sexta-feira, 21, não havia manifestação pública do governo americano sobre o pedido brasileiro de consultas diplomáticas.

A leitura do ministro joga o desfecho da disputa para depois de outubro e, na prática, retira do calendário deste ano a expectativa de acordo. A Lei da Reciprocidade permite ao Brasil responder com tarifas sobre importados americanos, com suspensão de concessões comerciais e com restrições em direitos de propriedade intelectual, cada uma dessas medidas atinge cadeias que compram insumos dos Estados Unidos. A conta de qualquer contramedida, portanto, chega primeiro ao importador brasileiro e ao preço final ao consumidor, o que explica a pressão do setor privado por prazo e por negociação.

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