IFI aponta déficit estrutural de 1,4% do PIB e despesas em alta
Relatório de agosto do órgão técnico do Senado projeta déficit primário de R$ 60,3 bilhões em 2026 e dívida bruta em 82,5% do PIB
A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico do Senado Federal, afirmou em relatório divulgado na quinta-feira (20) que as despesas do governo federal seguem crescendo em ritmo superior ao das receitas. O documento é o Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de agosto, o 115º da série.
O indicador central do relatório é o déficit primário estrutural, que exclui receitas e despesas não recorrentes e ajusta o resultado ao ciclo econômico. Ele chegou a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no acumulado de quatro trimestres até junho de 2026. No mesmo período de 2025, o déficit estrutural era de 0,7% do PIB.
O que dizem os números
Nos sete primeiros meses de 2026, o governo central acumulou déficit primário efetivo de R$ 81,2 bilhões. No mesmo intervalo, a receita líquida cresceu 6,0% acima da inflação e a despesa avançou 6,3% em termos reais.
Para o ano fechado, a IFI projeta déficit primário de R$ 60,3 bilhões, o equivalente a cerca de 0,4% do PIB, enquanto o centro da meta fiscal prevê superávit primário de 0,25% do PIB. Para 2027, a projeção do órgão é de déficit de R$ 86,1 bilhões.
A dívida bruta do governo geral, na projeção da instituição, chega a 82,5% do PIB em 2026 e a 86,4% do PIB em 2027.
Segundo a IFI, a pressão vem tanto das despesas obrigatórias quanto das chamadas discricionárias rígidas, gastos que não são obrigatórios por lei, mas que o governo não consegue cortar na prática, como custeio administrativo e manutenção de serviços em funcionamento.
Meta de 2026 e a conta de 2027
O diretor da IFI Alexandre Andrade avaliou que o quadro de curto prazo melhorou na margem.
"Os números mostram que o cumprimento da meta fiscal de 2026 ficou um pouco mais folgado", afirmou.
O relatório registra, porém, que os fatores que aliviaram o resultado deste ano tendem a se esgotar, o que transfere a pressão para o exercício seguinte. É por isso que a projeção de déficit de 2027 é maior que a de 2026, mesmo com receita em alta.
A distinção entre os dois indicadores explica a leitura do relatório. O resultado primário efetivo mede o que entrou e o que saiu do caixa no período, sem contar juros da dívida. O estrutural retira desse cálculo o efeito do ciclo econômico e as receitas atípicas, como as que vêm de disputas tributárias encerradas ou de concessões pontuais. Quando o estrutural piora enquanto o efetivo melhora, é sinal de que o alívio de curto prazo veio de fatores que não se repetem.
Foi o que a IFI apontou: a arrecadação cresceu acima da inflação, mas a despesa cresceu mais. Com o gasto avançando em ritmo maior que a receita, o espaço no Orçamento para novas políticas se estreita, e a diferença é coberta por endividamento, que aparece na projeção de dívida bruta acima de 80% do PIB nos dois anos.
Cada ponto percentual de dívida em relação ao PIB representa dezenas de bilhões de reais. O custo do endividamento aparece na despesa com juros, que não entra no resultado primário, mas consome recursos do contribuinte e disputa espaço com o gasto discricionário.
A IFI foi criada em 2016 e funciona vinculada ao Senado. O órgão produz projeções próprias de receita, despesa, resultado primário e dívida, com metodologia independente da usada pelo Ministério da Fazenda, e publica o RAF mensalmente.
Os relatórios da IFI são usados como referência por senadores durante a discussão do Orçamento e das metas fiscais, e servem de contraponto técnico às estimativas do Executivo. O órgão não tem poder de decisão sobre a política fiscal: sua função é medir, projetar e apontar riscos.
O relatório completo, com as tabelas de projeção e os cenários alternativos, está disponível na página da instituição no portal do Senado.