IFI aponta despesa federal crescendo 6,3% e déficit de R$ 81,2 bilhões
Relatório de agosto do órgão do Senado projeta déficit primário de 0,4% do PIB em 2026, contra meta de superávit de R$ 34,3 bilhões
A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão do Senado que acompanha as contas públicas, apontou nesta quinta-feira, 20, que as despesas do governo federal continuam crescendo acima da inflação e em ritmo superior ao da arrecadação. O Relatório de Acompanhamento Fiscal de agosto registra alta real de 6,3% nos gastos, contra 6,0% na receita líquida.
Segundo o documento, o setor público consolidado acumulou déficit primário efetivo de R$ 81,2 bilhões entre janeiro e julho deste ano. Para o fechamento de 2026, a IFI projeta déficit primário efetivo de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB).
A meta fixada para o ano é de superávit primário de R$ 34,3 bilhões, o equivalente a 0,25% do PIB. O cumprimento do alvo depende das deduções legais previstas na regra fiscal, cujo montante é objeto de divergência entre o governo e a instituição: o Executivo calcula R$ 62,8 bilhões, e a IFI estima R$ 69,8 bilhões.
O relatório aponta ainda que o déficit estrutural, medida que descarta os efeitos do ciclo econômico e as receitas não recorrentes, estava em 1,4% do PIB até o segundo trimestre. É o indicador que a instituição usa para separar o que é resultado de conjuntura do que é gasto permanente incorporado ao orçamento.
O que puxou receita e despesa
Do lado da arrecadação, o relatório atribui parte do desempenho às receitas derivadas do petróleo. Do lado da despesa, registra a aceleração no pagamento de emendas parlamentares e aponta queda nos gastos com o Bolsa Família.
O diretor da IFI Alexandre Andrade avaliou que os números do período não são suficientes para corrigir a trajetória das contas.
"O horizonte desejável para o futuro do país impõe um ajuste estrutural mais profundo e sustentável", afirmou Alexandre Andrade, diretor da Instituição Fiscal Independente.
O relatório descreve o avanço das despesas como movimento contínuo e veloz, expressão que a própria instituição usa no texto para caracterizar o comportamento do gasto ao longo dos últimos exercícios.
Os principais números do relatório de agosto:
- Despesa: alta real de 6,3%
- Receita líquida: alta real de 6,0%
- Déficit primário efetivo (janeiro a julho): R$ 81,2 bilhões
- Projeção para 2026: déficit primário efetivo de 0,4% do PIB
- Meta do ano: superávit de R$ 34,3 bilhões, ou 0,25% do PIB
- Déficit estrutural até o segundo trimestre: 1,4% do PIB
A divergência de R$ 7 bilhões no cálculo das deduções legais não é detalhe contábil. São as despesas que a regra fiscal permite descontar do resultado antes da comparação com a meta, e cada real deduzido reduz o esforço necessário para declarar o alvo cumprido no fim do exercício.
Como funciona a IFI
A Instituição Fiscal Independente foi criada em 2016 e está vinculada ao Senado Federal. Produz projeções próprias de receita, despesa, resultado primário e dívida pública, sem se subordinar às estimativas oficiais do Poder Executivo. O Relatório de Acompanhamento Fiscal é publicado mensalmente.
Por não integrar a estrutura do governo, os números da IFI costumam funcionar como contraponto técnico às projeções apresentadas pelo Ministério da Fazenda, sobretudo em pontos como o alcance das deduções legais e o tamanho real do esforço necessário para cumprir a meta.
O acompanhamento mensal permite comparar a trajetória observada com o que foi projetado no início do exercício. É por esse caminho que a IFI chega ao déficit estrutural, indicador que separa o efeito do ciclo econômico do gasto que permanece no orçamento independentemente do desempenho da economia.
Procurado, o Ministério da Fazenda não havia se manifestado sobre o relatório até a publicação desta reportagem.
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