Violência doméstica atinge 4,4 milhões de mulheres com deficiência, e a igreja é o primeiro socorro
DataSenado: 38% das mulheres com deficiência já sofreram violência doméstica e 83% não pediram ajuda. Igreja é mais procurada que delegacia.
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Uma em cada quatro brasileiras sofre violência doméstica. Entre as mulheres com deficiência, o índice é de 38%. O dado está na 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado e do Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), apresentada em 23 de setembro na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado. São 4,4 milhões de mulheres agredidas por um homem dentro de casa.
O recorte por deficiência é inédito no levantamento, que existe desde 2005. Entre as mulheres sem deficiência, o percentual de quem já sofreu violência doméstica ou familiar é de 25%.
O segundo número da pesquisa é maior que o primeiro: 83% das que reconheceram ter sofrido violência não procuraram ninguém. São cerca de 3,75 milhões de mulheres fora de qualquer rede de apoio, oficial ou informal.
O que a pesquisa mediu
O DataSenado ouviu 21.641 mulheres em todas as unidades da Federação, por telefone, entre 16 de maio e 8 de julho de 2025. Desse total, 2.828 se identificaram como mulheres com deficiência. O nível de confiança é de 95%. Foi a primeira edição em que a entrevistada pôde se autodeclarar pessoa com deficiência, o que permitiu separar os dois grupos.
A diferença aparece em todos os tipos de violência medidos. Entre as que já foram agredidas, a violência patrimonial foi relatada por 46% das mulheres com deficiência, contra 39% das demais. Na violência sexual, a distância é maior: 39% contra 28%.

A violência também começa mais cedo. Entre as mulheres com deficiência que sofreram agressão, 36% tinham até 19 anos na primeira vez e 24% tinham entre 20 e 29 anos. Seis em cada dez foram agredidas antes dos 30. Em 65% dos casos, o agressor é o marido ou companheiro.
Há ainda o que a pesquisa chama de não reconhecimento. Entre as mulheres com deficiência que começaram a entrevista dizendo não ter sofrido violência, 34% descreveram em seguida pelo menos uma situação compatível com violência doméstica, familiar ou digital nos 12 meses anteriores. Só 7% haviam chamado aquilo de violência.
"Quando a gente questiona essas mulheres em relação aos últimos 12 meses, 7% delas reconheceram que vivenciaram situações de violência. Porém, quando confrontadas com alguma situação de violência que a gente menciona, aí elas reconheciam que tinham vivido", disse a assistente social do OMV, Talita Santos de Oliveira.
A quem elas recorrem quando pedem ajuda
Entre as agredidas nos 12 meses anteriores que buscaram apoio, a ordem dos socorros procurados diz onde a confiança está depositada:
- Igreja: 60%
- Amigos: 46%
- Família: 46%
- Apoio psicológico: 44%
- Delegacia comum: 40%
- Delegacia da mulher: 31%
- Ligue 190: 26%
- Ligue 180: 16%
O canal telefônico criado pelo governo federal para denúncia de violência contra a mulher, o Ligue 180, é o último da lista. A comunidade religiosa é o primeiro.
Parte da distância em relação aos canais oficiais vem do desconhecimento da lei. Entre as mulheres com deficiência, 18% afirmaram não saber nada sobre a Lei Maria da Penha, o dobro dos 9% registrados entre as demais. Sobre medidas protetivas, 23% disseram não ter nenhum conhecimento, contra 15% das mulheres sem deficiência. O Supremo Tribunal Federal ampliou em agosto o alcance da Lei Maria da Penha para casos de violência de gênero fora do ambiente doméstico.
O que foi cobrado do poder público
Vice-presidente da CDH, a senadora Mara Gabrilli (PSD-SP) atribuiu a vulnerabilidade à dependência econômica e à fragilidade das redes de apoio. "Fica claro que a dependência econômica, as redes de apoio e as relações sociais das mulheres com deficiência ficam gravemente comprometidas", afirmou na audiência.
O perfil traçado pela pesquisa sustenta o argumento. O país tem cerca de 11,7 milhões de mulheres com deficiência. Entre elas, 61% não concluíram o ensino médio, 78% vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos e 48% não conseguem se sustentar com o próprio dinheiro. O Censo 2022 já havia mostrado que só 29% das pessoas com deficiência têm trabalho.
A presidente do Conselho Estadual para Assuntos da Pessoa com Deficiência de São Paulo, Ariani Queiroz de Sá, defendeu o registro obrigatório da deficiência nos boletins de ocorrência. Sem o campo, disse, não há estatística nem orçamento dirigido. A presidente da Frente Nacional das Mulheres com Deficiência, Rosana Lago, cobrou uso dos dados: "Aquilo que o Estado não consegue identificar possivelmente vai encontrar dificuldades para enfrentar".
O relatório completo está publicado no portal do Senado Federal. A CDH não marcou nova audiência sobre o tema; o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou na sessão que os dados vão subsidiar iniciativas já em discussão, sem citar prazo.