Apagão no Rio deixa 279 mil sem luz e expõe a conta da rede elétrica
Vendaval derrubou o fornecimento para 1,1 milhão de unidades; especialistas apontam manutenção preventiva como ponto crítico
Cerca de 279 mil clientes da Light seguiam sem energia elétrica no início da manhã de quinta-feira (30/7), na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, um dia depois do vendaval que atingiu a área na tarde de quarta (29/7). No momento mais crítico, a falta de luz alcançou 1,1 milhão de unidades consumidoras, segundo a distribuidora.
Na capital, os bairros mais afetados foram Campo Grande, Bangu, Anchieta, Tijuca, Catumbi, Jacarepaguá, Santa Cruz e Recreio. Na Baixada Fluminense, Nova Iguaçu e Duque de Caxias concentraram os trechos com maior número de ocorrências. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou que monitora a situação.
A Light comunicou prazo de até 48 horas para restabelecer o fornecimento em toda a área atingida. De acordo com a empresa, em vários pontos a extensão dos danos exige a reconstrução de trechos da rede, com substituição de postes danificados, reparo de estruturas comprometidas e remoção de árvores caídas, o que torna o trabalho mais lento.
O que a rede exige de investimento
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam a manutenção preventiva como o ponto em que a conta se define. Edson Watanabe, professor do Programa de Engenharia Elétrica da Coppe/UFRJ, resumiu a alternativa disponível às distribuidoras.
"Tem que ter manutenção. Ou enterra ou faz manutenção. No geral, não se faz nem um, nem outro"
Watanabe afirmou que a responsabilidade por esses custos é das concessionárias de energia e que seria melhor se houvesse mais atividade do lado das empresas. Leandro Torres, professor da Escola Politécnica da UFRJ e especialista em desastres, observou que a fiação subterrânea custa de sete a dez vezes mais que a linha aérea, o que pode tornar a solução economicamente inviável em larga escala. A poda de árvores na época certa aparece, nas duas avaliações, entre as medidas necessárias.
Quem paga e quem fiscaliza
O custo da manutenção da rede é remunerado na tarifa paga pelo consumidor, definida em revisões periódicas conduzidas pela Aneel. É a agência que aprova o valor a ser cobrado e acompanha os indicadores de qualidade do serviço, que medem duração e frequência das interrupções por unidade consumidora.
Quando o desempenho fica fora dos limites, a regulação prevê compensação automática ao consumidor no valor da fatura. Eventos climáticos extremos costumam entrar na discussão sobre exclusão de ocorrências desses indicadores, o que muda o resultado final da avaliação da distribuidora.
A discussão sobre o modelo tem um componente estrutural. A rede de distribuição brasileira é majoritariamente aérea, o que a expõe a vento forte, queda de árvore e descarga atmosférica. A alternativa apontada pelos engenheiros, o cabeamento subterrâneo, esbarra no custo citado por Torres e costuma ser adotada apenas em áreas centrais de grandes cidades ou em projetos novos, quando a obra pode ser executada junto com a urbanização.
Entre uma coisa e outra sobra a manutenção preventiva, que é mais barata e depende de execução contínua: inspeção de poste, substituição de estrutura desgastada, troca de cabo com isolamento comprometido e poda programada de vegetação sob a rede. É o item que Watanabe aponta como o mais negligenciado.
A Aneel não divulgou até o momento determinação específica ou abertura de processo de fiscalização sobre o episódio. A Light não informou quantas equipes foram mobilizadas nem qual investimento em manutenção preventiva foi executado na área atingida no último ciclo.
O consumidor que ficou sem energia por período prolongado pode registrar reclamação na distribuidora, guardar o número de protocolo e, sem solução, acionar a ouvidoria da Aneel. Danos a eletrodomésticos causados por oscilação podem ser objeto de pedido de ressarcimento, com prazo próprio previsto na regulação.
Veja também a decisão do CNPE sobre os gasodutos da Petrobras, que trata de outro gargalo de infraestrutura energética no país.
Com informações da Agência Brasil.