Segurança

Caiado diz que EUA não vão resolver problema do crime no Brasil

Candidato do PSD à Presidência respondeu a pergunta sobre a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo americano

O candidato à Presidência da República Ronaldo Caiado (PSD) afirmou nesta segunda-feira, 17, em São Paulo, que os Estados Unidos não vão resolver o problema do crime organizado no Brasil. A declaração foi dada à imprensa depois de o ex-governador de Goiás participar de evento do Grupo Voto, na capital paulista.

Caiado respondia a uma pergunta sobre a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos.

"Os americanos não vão resolver um problema que é nosso. Não tenho preocupação nenhuma com os americanos. Quem vai resolver esse problema somos nós"

Na mesma conversa com jornalistas, o candidato disse que falta ação ao governo federal no combate ao crime organizado e afirmou que as facções brasileiras se espalharam para países vizinhos.

O que decidiu o governo americano

O Departamento de Estado dos Estados Unidos decidiu classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas em 28 de maio de 2026. A designação é um instrumento da legislação americana que permite bloquear bens sob jurisdição dos Estados Unidos, restringir transações financeiras e enquadrar quem presta apoio material aos grupos.

A medida vale no território e no sistema financeiro americanos. Ela não altera, por si só, a tipificação penal aplicada no Brasil, onde as facções respondem por organização criminosa, tráfico de drogas, homicídio e outros crimes previstos na legislação brasileira, e não pela Lei Antiterrorismo.

O alcance prático da designação depende de onde estão os ativos e as transações dos grupos. Operações financeiras que passam por bancos com exposição ao sistema americano ficam sujeitas a bloqueio, e empresas estrangeiras que negociam com pessoas ligadas às facções passam a correr risco de sanção secundária. Nada disso depende de decisão de autoridade brasileira.

O outro efeito é político. A designação abre caminho para pressão diplomática sobre países que, na avaliação americana, não enfrentam os grupos com rigor suficiente, e é esse ponto que Caiado rejeitou ao dizer que não tem preocupação com os americanos.

A classificação virou tema da disputa presidencial porque separa dois caminhos: incorporar o rótulo de terrorismo ao enfrentamento das facções, com o alinhamento à decisão americana que isso implica, ou tratar o combate como assunto de política criminal interna. Caiado se posicionou no segundo campo na fala desta segunda, embora venha defendendo o endurecimento penal contra os grupos.

A posição do candidato sobre facções

O ex-governador construiu a pré-campanha sobre o tema da segurança pública. Em agosto, apresentou proposta que enquadra PCC e Comando Vermelho como terrorismo doméstico, ou seja, pela via da legislação brasileira, e defendeu celas individuais para chefes de facção. Também sustentou publicamente a criação de uma estrutura de cooperação policial entre países sul-americanos para alcançar as facções que operam fora do território nacional.

A defesa do enquadramento como terrorismo doméstico e a recusa em depender da designação americana não são contraditórias no discurso do candidato: em ambos os casos, a competência que ele reivindica é do Estado brasileiro.

Caiado deixou o governo de Goiás em 31 de março deste ano para disputar a Presidência, prazo fixado pela legislação eleitoral para quem ocupa cargo executivo e concorre a outro posto. O vice, Daniel Vilela (MDB), assumiu o governo estadual.

O Palácio do Planalto não se manifestou sobre a declaração até a publicação desta reportagem. A campanha do candidato também não detalhou como seria a articulação internacional que ele defende, nem se manteria canal de cooperação com agências americanas em investigações sobre lavagem de dinheiro das facções.

O tema deve voltar aos debates da campanha, já que a segurança pública aparece entre as principais preocupações do eleitorado nas pesquisas divulgadas neste ano. Sobre a proposta apresentada pelo candidato no início do mês, leia o plano que enquadra PCC e Comando Vermelho como terrorismo doméstico.

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