Lula projeta Haddad na Presidência após dois mandatos em São Paulo
Declaração foi feita na convenção nacional do PT que oficializou a chapa do presidente à reeleição, com Geraldo Alckmin como vice
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) projetou o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT-SP) como futuro presidente da República durante a convenção nacional do partido, realizada no domingo, 2 de agosto, em que a chapa do petista à reeleição foi oficializada com Geraldo Alckmin (PSB) como candidato a vice-presidente.
No discurso, Lula tratou como cenário dado tanto a vitória de Haddad no governo de São Paulo neste ano quanto a chegada dele ao Palácio do Planalto depois de dois mandatos no estado. A declaração foi divulgada pela Gazeta do Povo e reproduzida por outros veículos no mesmo dia.
Agora é hora de pensar nesse país. Qual é o país do futuro que eu vou entregar quando você, Haddad, depois de governar São Paulo por oito anos, estiver sendo presidente da República.
Haddad deixou o Ministério da Fazenda para disputar o governo paulista. A pasta é ocupada desde março deste ano por Dario Durigan. A assessoria do ex-ministro não se manifestou publicamente sobre a projeção feita pelo presidente até a publicação desta reportagem.
A conta de tempo apresentada no discurso
A sequência descrita por Lula não se encaixa no calendário eleitoral. Um eventual mandato de Haddad no governo de São Paulo começaria em 1º de janeiro de 2027 e terminaria no fim de 2030. Dois mandatos consecutivos, os oito anos citados, se estenderiam até o fim de 2034.
O mandato presidencial em disputa neste ano, por sua vez, vai de 2027 a 2031. Entre o fim do próximo mandato de Lula e o encerramento de dois períodos de Haddad em São Paulo há uma diferença de quatro anos, o que inviabiliza a sucessão direta descrita no discurso. Para que a sequência se realizasse como enunciada, Haddad só disputaria a Presidência em 2034.
Uma candidatura ao Planalto em 2030, ao fim de um único mandato paulista, seria compatível com o calendário. Nesse caso, porém, não corresponderia aos oito anos de governo estadual mencionados pelo presidente.
A convenção do domingo oficializou a sétima candidatura de Lula à Presidência. O petista disputou o cargo em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022, e foi eleito em três delas, em 2002, 2006 e 2022. Alckmin, que foi adversário dele no segundo turno de 2006, repete a posição de candidato a vice ocupada em 2022.
O que a fala sinaliza dentro do PT
A projeção pública de um nome para 2030 ou 2034 tem efeito imediato na disputa interna do partido, porque antecipa a discussão sobre quem herda o capital político do presidente. Haddad foi candidato do PT à Presidência em 2018, quando Lula estava preso e teve o registro barrado, e ficou em segundo lugar naquele pleito.
O ex-ministro entra na disputa estadual em um estado que o partido nunca governou. São Paulo concentra o maior colégio eleitoral do país e tem servido de plataforma para candidaturas nacionais, o que explica o peso que o partido atribui à disputa deste ano.
A projeção também expõe o peso relativo de outros nomes citados no partido para uma sucessão futura, entre eles governadores e ministros da atual composição. Ao nomear um único sucessor em ato oficial da legenda, o presidente reduz a margem para que a disputa interna seja tratada como aberta.
A convenção do domingo também definiu o discurso de campanha do presidente, que incluiu a promessa de disputa com o Congresso em torno das emendas parlamentares. O calendário eleitoral prevê que os registros de candidatura sejam protocolados na Justiça Eleitoral até 15 de agosto.