Múcio diz que Brasil teria de 'abrir o portão' se os EUA quisessem invadir
Ministro da Defesa afirmou em evento da CNI que o país não tem equipamento nem dinheiro para enfrentar uma invasão americana
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou nesta terça-feira, 4, que o Brasil não teria condições militares nem financeiras de enfrentar uma eventual invasão dos Estados Unidos. A declaração foi dada na abertura de um evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre descarbonização do setor marítimo.
Questionado sobre o que faria diante de uma ação militar americana, o ministro respondeu de forma direta.
"Me perguntaram se os Estados Unidos quisessem invadir o Brasil, o que é que eu faria. Temos que abrir o portão. O Brasil não tem equipamento para enfrentá-lo, nem tem dinheiro para consertar o portão", disse Múcio.
A fala ocorre em meio ao desgaste diplomático entre Brasília e Washington, marcado nos últimos meses pela disputa tarifária e por medidas do governo americano contra autoridades brasileiras.
O tamanho do orçamento
Múcio associou a resposta ao patamar de investimento do país no setor. Segundo o ministro, o Brasil destina cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) à Defesa, percentual inferior ao de outros países e insuficiente para sustentar programas de longo prazo de compra de equipamento e desenvolvimento de tecnologia.
O ministro comparou o gasto militar a uma apólice.
"Investir em defesa é como um plano de saúde. A gente escolhe o melhor, torcendo para não precisar usar", afirmou.
Na avaliação apresentada por ele no evento, o investimento em Defesa não se justifica apenas pela hipótese de conflito. Múcio argumentou que a área funciona como indutora de desenvolvimento tecnológico, gera inovação aproveitável pela indústria civil, fortalece a produção nacional e amplia a autonomia do país em setores considerados estratégicos.
O argumento é o mesmo usado pela indústria de defesa para pedir previsibilidade orçamentária. O setor reúne empresas de eletrônica embarcada, blindagem, munição, comunicação criptografada e construção naval, e depende de encomenda pública contínua para manter linha de produção e engenharia própria no país. Sem contrato de longo prazo, a capacidade instalada migra para outros mercados ou desaparece.
Como fica o debate orçamentário
A declaração cai em um momento em que o Congresso Nacional retoma a discussão da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 e prepara a análise da peça orçamentária do próximo ano. A Defesa disputa espaço no Orçamento com áreas de gasto obrigatório e com as emendas parlamentares, e os programas de reaparelhamento das três Forças dependem de previsão plurianual para não sofrerem contingenciamento.
O patamar de 1% do PIB citado pelo ministro coloca o Brasil abaixo da média de países com território e litoral comparáveis. A Marinha mantém em curso o programa de submarinos com transferência de tecnologia francesa, a Força Aérea recebe caças Gripen produzidos em parceria com a Suécia e o Exército toca a modernização de blindados, três projetos sensíveis a cortes anuais.
A extensão do território a ser vigiado é o outro lado da conta. São mais de 16 mil quilômetros de fronteira terrestre com dez países e uma faixa marítima que abriga as reservas do pré-sal e o grosso do comércio exterior brasileiro, que circula por via marítima. Foi justamente esse recorte, o do setor naval, que motivou o evento da CNI em que o ministro falou.
A declaração desta terça repõe no debate público uma questão que costuma ficar restrita ao orçamento: qual capacidade militar o país decide comprar e a que custo. Múcio não anunciou mudança de patamar de investimento nem apresentou proposta de recomposição do orçamento da pasta durante o evento.
O Ministério da Defesa não divulgou nota complementar às declarações do ministro. A Embaixada dos Estados Unidos em Brasília não se manifestou sobre a fala até a publicação deste texto.
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