Gilmar Mendes diz não esperar em 2026 a tensão que levou ao 8 de janeiro
Ministro do STF minimizou as críticas de Flávio Bolsonaro às urnas eletrônicas e afirmou que candidatos experientes confiam no sistema
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes afirmou, nesta quarta-feira, 5, em Brasília, que não espera para a eleição deste ano a tensão que marcou a disputa de 2022. Ao falar a jornalistas após um evento na capital federal, o magistrado associou o clima daquele pleito aos atos de 8 de janeiro de 2023.
"Não espero que tenha a tensão e os desdobramentos que tivemos em 2022, nem desejo. Veja que o resultado de 2022 é o 8 de janeiro", declarou. A avaliação foi divulgada pela Gazeta do Povo e reproduzida por outros veículos.
Gilmar Mendes integrou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em dois períodos e o presidiu entre 2016 e 2018. A fala ocorre a dois meses do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e em meio à contestação pública do sistema eletrônico de votação por parte de um dos candidatos à Presidência.
O que o ministro disse sobre as críticas às urnas
Questionado sobre as declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a respeito das urnas eletrônicas, Gilmar Mendes tratou o episódio como próprio do período eleitoral. "É normal, em período eleitoral, um certo estresse e algumas hipérboles, alguns exageros", afirmou.
O ministro acrescentou que candidatos com mais de duas décadas de disputas eleitorais "sabem bem, confiam no sistema eleitoral". Em outra declaração recente, disse que discutir a confiabilidade da urna eletrônica "não faz mais sentido".
A avaliação carrega uma leitura sobre o cálculo político por trás da contestação: a de que o questionamento cumpre função de campanha e não reflete convicção sobre o funcionamento do sistema. É a mesma linha que o STF e o TSE adotaram em 2022, quando trataram os ataques às urnas como estratégia eleitoral, leitura rejeitada por quem os formulava.
Flávio Bolsonaro afirmou, em discurso no evento Debatendo o Brasil, que urnas usadas no Brasil teriam ligação com a Smartmatic, empresa associada ao sistema eleitoral venezuelano, e citou um suposto relatório da CIA sobre fraudes em eleições na Venezuela. Ele não apresentou provas da alegação.
A resposta da Justiça Eleitoral
O TSE negou a versão. Segundo o tribunal, a Smartmatic não fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras. Os equipamentos foram desenvolvidos por técnicos da própria Justiça Eleitoral e são fabricados por empresas contratadas em licitação pública, sem relação com a tecnologia da companhia citada.
A Corte informou ainda que a Smartmatic manteve contratos com a Justiça Eleitoral apenas para serviços de conexão de dados e voz, sem participação na programação ou na operação das urnas.
Como resposta institucional, o TSE marcou para 17 de agosto uma segunda reunião com embaixadores, representantes diplomáticos e organismos internacionais, na sede do tribunal, para apresentar o funcionamento da urna eletrônica e do sistema eleitoral brasileiro.
A urna eletrônica não é conectada à internet durante a votação e a apuração, e o código-fonte do sistema é aberto à inspeção de partidos políticos, do Ministério Público, da Ordem dos Advogados do Brasil e de entidades fiscalizadoras nos meses que antecedem o pleito. O tribunal também realiza teste público de segurança, em que especialistas são convidados a tentar violar o equipamento.
A contestação do sistema de votação foi o eixo do discurso que antecedeu os atos de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília. O STF segue julgando ações penais decorrentes daquele episódio, com condenações proferidas ao longo de 2026.
A assessoria do senador Flávio Bolsonaro não se manifestou sobre as declarações de Gilmar Mendes até a publicação desta reportagem. O TSE também já havia se reunido uma primeira vez com o corpo diplomático sobre o mesmo assunto.
O calendário eleitoral entra agora na fase de registro de candidaturas, com prazo até 15 de agosto. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro e o segundo, onde houver, para 25 de outubro.