Política

Fantástico: Flávio teve três registros de entrada na Argentina em 34 minutos, com documentos diferentes

Reportagem aponta van de agência de turismo sem sede e israelense apontado como ex-oficial de inteligência; advogado do senador nega fuga

O Fantástico, da TV Globo, exibiu no domingo, 1º de novembro, uma reportagem com documentos do sistema de imigração da Argentina sobre a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, na terça-feira, 27. O material mostra três registros de entrada do parlamentar em 34 minutos, com documentos diferentes, e a presença de um israelense apontado como ex-oficial de inteligência. O advogado do senador, Frederick Wassef, nega que tenha havido fuga e diz que nenhuma informação sobre o trajeto é oficial ou confirmada. O resumo da reportagem foi publicado pelo Jornal de Brasília.

Flávio deixou o país depois de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes mandar que entregasse os passaportes à Polícia Federal, dias após a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O que mostram os registros da Argentina

Segundo o programa, o senador saiu de Brasília às 5h05 de terça em um jato particular, que o Fantástico liga ao advogado Willer Tomaz, rumo à região de Buenos Aires. Depois seguiu em outro voo privado para Puerto Iguazú, cidade argentina vizinha a Foz do Iguaçu (PR). O aeroporto local tem pista de 3.300 metros, capaz de receber jatos executivos de grande porte.

A mulher dele, Fernanda, e as duas filhas partiram da capital federal em outra aeronave, para Cascavel (PR). Por volta das 20h, as três embarcaram no hangar do aeroporto em uma van da Iguaçu Dallas Travel Turismo. A reportagem diz que o endereço da empresa na Receita Federal corresponde a um estacionamento, onde funcionários afirmaram que a agência nunca operou. Em nota, a empresa negou ter transportado o senador.

Na fronteira, o sistema migratório argentino registrou três entradas em nome de Flávio, todas na mesma van: às 22h37 com passaporte italiano, às 22h40 com carteira de motorista e às 23h11 com passaporte brasileiro. Os dois registros com documentos brasileiros foram cancelados depois, e só o do passaporte italiano permaneceu válido. Os dados da mulher e das filhas constam de outra van que cruzou a ponte naquela noite.

Uma terceira van levava o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre, que atuou na defesa de Jair Bolsonaro, e o israelense Menachem Booky Halevy. O Fantástico o descreve como ex-oficial do serviço de inteligência de Israel, com histórico de eventos ao lado do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Segundo a reportagem, ele entrou no Brasil em outubro por Guarulhos e somou quatro passagens pelo país no ano. O motorista disse ter sido contratado só para levar um grupo de um posto em Foz até o aeroporto argentino e negou que houvesse integrantes da família Bolsonaro.

Apesar do registro de entrada por terra, o programa afirma que Flávio chegou a Puerto Iguazú em voo vindo de Buenos Aires e esperou a família por horas dentro do avião, na pista.

Quem pagou e o que dizem os envolvidos

De acordo com o programa, a viagem aos Estados Unidos em um jato da empresa argentina Baires Fly custou US$ 150 mil, pagos por um intermediário americano. A imprensa dos Estados Unidos aponta que o voo foi articulado por Jason Miller, assessor de comunicação da Casa Branca. Miller se recusou a comentar, e a Casa Branca só remeteu a declarações públicas do presidente Donald Trump, que não tratam do jato. O secretário de Estado, Marco Rubio, negou ter ajudado na saída do senador, conforme o Fantástico.

A assessoria de Willer Tomaz afirmou que é falso que aeronave dele ou de empresas ligadas à família tenha sido usada. A Baires Fly não respondeu. Na Argentina, o governo de Javier Milei disse não ter o que declarar, segundo o programa. A Justiça do país mandou preservar imagens de segurança do aeroporto e da fronteira de Puerto Iguazú, e a deputada Marcela Pagano cobrou explicações sobre a escolta policial e o uso de veículos diplomáticos.

O jornal argentino Clarín publicou que agentes americanos teriam organizado parte da movimentação no aeroporto e que pelo menos três jatos foram contratados como alternativas. O Resenhando não conseguiu confirmar esse ponto de forma independente. Flávio está na Flórida com autorização temporária de entrada, concedida por ordem de Trump. O próximo passo está na Argentina, onde a Justiça analisa as imagens preservadas.