Política

Sete partidos do centrão declaram neutralidade e miram o Congresso

MDB, PP, União Brasil, Republicanos, Podemos, PSDB e Cidadania concentram estrutura nas bancadas; cada cadeira na Câmara movimenta R$ 182,5 milhões em quatro anos

Sete partidos que formam o centrão decidiram não apoiar nenhum candidato à Presidência da República em 2026 e concentrar recursos e estrutura nas disputas para a Câmara dos Deputados e o Senado. MDB, PP, União Brasil, Republicanos, Podemos, PSDB e Cidadania declararam neutralidade na corrida presidencial.

O cálculo por trás da escolha é orçamentário. Levantamento publicado neste sábado, 8, pela Gazeta do Povo aponta que cada cadeira na Câmara dos Deputados movimenta cerca de R$ 182,5 milhões ao longo de quatro anos, somando emendas parlamentares e repasses de fundos públicos. O número parte da estimativa de R$ 40,2 milhões por deputado ao ano em emendas individuais, cifra apresentada no livro "O Brasil pode dar certo", do Ranking dos Políticos em parceria com a Atlas Network.

Os dois fundos que bancam a campanha deste ano reforçam a conta. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o fundo eleitoral, foi fixado em R$ 4,9 bilhões pela Comissão Mista de Orçamento em setembro de 2025. O Fundo Partidário para 2026 está previsto em R$ 1,4 bilhão na Lei Orçamentária Anual. A distribuição dos dois é proporcional ao tamanho das bancadas eleitas, o que amarra o financiamento futuro ao desempenho legislativo de outubro.

A dimensão do que está em jogo aparece no volume total. O mesmo levantamento contabiliza R$ 32 bilhões em emendas parlamentares e calcula que uma bancada de cem deputados chega a movimentar cerca de R$ 18 bilhões ao longo do mandato. É um poder de destinação de recurso que independe do resultado da disputa presidencial e que se renova a cada Orçamento aprovado pelo Congresso.

O que dizem os analistas

Para o cientista político Eduardo Grin, professor da Fundação Getulio Vargas, a estratégia não muda conforme o vencedor da eleição presidencial. "A lógica do centrão é seguir mandando no Parlamento, quem quer que ganhe", afirmou à Gazeta do Povo. Na avaliação dele, a neutralidade tende a favorecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a enfraquecer o senador Flávio Bolsonaro (PL), que precisaria de palanques estaduais para ampliar alcance no primeiro turno.

O analista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, aponta o financiamento público como o fator que reorientou o comportamento partidário. Com fundo eleitoral robusto e distribuição atrelada à bancada, a legenda passa a ter mais retorno em eleger deputados do que em disputar o Planalto e arcar com o desgaste de uma campanha nacional.

Efeito sobre a próxima legislatura

A aposta nas bancadas tem consequência direta na definição dos comandos da Câmara e do Senado em fevereiro de 2027 e no controle das comissões. Partidos com bancadas maiores negociam presidências, relatorias e espaço na Comissão Mista de Orçamento, onde se decide a execução das emendas.

O modelo de emendas parlamentares ampliou o poder do Legislativo sobre a destinação de recursos federais na última década, o que reduziu o custo de ficar fora do governo eleito. Um parlamentar de bancada grande mantém capacidade de indicar verba para a base eleitoral independentemente de quem ocupa o Palácio do Planalto, e a negociação com o vencedor fica para depois das urnas.

Os sete partidos não divulgaram nota conjunta sobre a decisão. O senador Ciro Nogueira (PP), presidente do Progressistas, é um dos caciques citados no levantamento entre os que optaram pela neutralidade.

A eleição de 4 de outubro renova toda a Câmara dos Deputados, com 513 cadeiras, e dois terços do Senado, o que significa duas vagas por unidade da Federação.

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