Aprovação de pautas do governo cai a 38% na Câmara e no Senado
Levantamento da Ética Inteligência Política compara o primeiro semestre de 2025 com o de 2026 e mostra queda de 36,5 pontos no Senado
A aprovação das pautas defendidas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso Nacional caiu para 38% na Câmara dos Deputados e 38,5% no Senado no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento da consultoria Ética Inteligência Política. Os dados foram divulgados em 24 de julho pelo portal Poder360 e detalhados nesta semana pela Gazeta do Povo.
A comparação é com o mesmo período de 2025. No Senado, a taxa despencou de 75% para 38,5%, recuo de 36,5 pontos percentuais. Na Câmara, a queda foi de 58% para 38%, retração de 20 pontos. O levantamento considerou os votos registrados dos 513 deputados federais e dos 81 senadores e consolidou os dados até junho de 2026.
A perda de apoio se concentra nos partidos que ocupam o centro do tabuleiro. Entre PSD, União Brasil e Podemos, a fidelidade às posições do Planalto caiu de 80% em 2025 para 40% neste ano, de acordo com a consultoria.
O que explica a queda
O quadro combina ano eleitoral com a autonomia financeira conquistada pelos parlamentares. Com o orçamento das emendas fora do controle direto do Executivo, o instrumento clássico de negociação perdeu força. Mesmo com a liberação de R$ 10,9 bilhões em emendas parlamentares como estratégia para garantir apoio, o Planalto não conseguiu segurar a base aliada.
A articulação política também mudou de comando no período analisado. Gleisi Hoffmann assumiu a Secretaria de Relações Institucionais no lugar de Alexandre Padilha e deixou o cargo em 1º de abril deste ano para disputar uma vaga ao Senado pelo Paraná. Lideranças do centrão relataram que o clima de confronto piorou depois da saída de Padilha.
Outro indicador da distância entre os Poderes está nos vetos presidenciais. Juan Carlos Arruda, diretor do Ranking dos Políticos, afirmou que, dos 87 vetos presidenciais analisados desde 2023, 43 foram rejeitados pelo Congresso, proporção próxima de 50%.
O que está travado na pauta
A queda na taxa de aprovação aparece em um Congresso que voltou do recesso com pauta acumulada. Estão na fila vetos presidenciais pendentes de apreciação em sessão conjunta, medidas provisórias com prazo correndo e a votação do Orçamento, além de propostas de segurança pública e da discussão sobre a escala de trabalho.
O calendário eleitoral encurta o tempo útil de votação. A partir do fim de agosto, com o início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, deputados e senadores candidatos passam a dividir a agenda entre Brasília e os estados, e o quórum tende a cair até outubro.
Não há, até o momento, contestação pública da Secretaria de Relações Institucionais aos números da consultoria. Interlocutores do governo têm atribuído parte das derrotas ao ambiente eleitoral e à mudança na sistemática das emendas, que reduziu a margem de negociação do Executivo.
A Ética Inteligência Política acompanha o comportamento parlamentar a partir dos votos nominais registrados nas duas Casas. A metodologia mede o percentual de vezes em que a posição defendida pelo governo prevaleceu nas votações em que houve orientação declarada.
A taxa de aprovação de pautas é indicador de governabilidade, e o número mede a capacidade de um governo converter proposta em lei. Uma taxa de 38% significa que, a cada dez votações em que o Planalto se posicionou, quatro terminaram no resultado desejado pelo Executivo.
O dado interessa a quem disputa a Presidência neste ano. Sem controle sobre o cronograma de liberação das emendas, o próximo ocupante do Palácio do Planalto herda um Congresso com autonomia orçamentária maior do que qualquer antecessor recente teve. A moeda de troca que sustentou governos anteriores perdeu valor, e a negociação passa a depender de cargo, de agenda comum e de calendário.
No Senado, a queda de 36,5 pontos em doze meses é a mais acentuada das duas Casas. A Câmara partiu de um patamar mais baixo em 2025, com 58%, e chegou ao mesmo terreno de 38%. As duas Casas terminaram o primeiro semestre praticamente empatadas na resistência às propostas do governo.