R$ 62,5 bilhões e uma regulação que não regulou
O primeiro ano completo de regra federal para as bets entregou arrecadação e formalizou uma indústria. Não entregou proteção ao apostador
Artigo assinado pela Redação Resenhando. Texto de opinião.
As famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as casas de apostas em 2025, primeiro ano completo de regulação do setor. O número é do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, produzido pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) com o Centro Internacional Celso Furtado, a partir de dados do Banco Central.
Não é o valor apostado. É a diferença entre o que os apostadores depositaram e o que voltou em prêmio. Dinheiro que saiu da mesa da família e não voltou.
Para dimensionar: as plataformas movimentaram R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix no período. A perda líquida equivale a 0,68% da renda nacional bruta disponível das famílias.
A regulação foi vendida como a solução. Fim da clandestinidade, arrecadação para o Estado, apostador protegido, empresa fiscalizada. Passado o primeiro ano, o que se vê é outra coisa.
O que a regra entregou
Entregou arrecadação. E entregou uma indústria formalizada, com licença federal, patrocínio em camisa de time e publicidade em horário nobre.
O que não entregou foi proteção. Nesta semana, o Ministério Público do Rio de Janeiro deflagrou operação contra um grupo que operava sites de apostas sem autorização da Fazenda, travava o saque dos clientes e movimentou R$ 1,4 bilhão em quatro anos. Na véspera, a Polícia Federal bloqueou R$ 1,1 bilhão em outra investigação, sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas no mesmo mercado.
Duas operações, R$ 2,5 bilhões, em 48 horas. Num setor que já está regulado há mais de um ano.
O governo informou que 5 milhões de pessoas foram impedidas de apostar por mecanismos de autoexclusão e por vedação a beneficiários do Bolsa Família. O dado costuma ser apresentado como prova de que o sistema funciona. Ele prova o contrário: se 5 milhões precisaram ser barrados, o desenho original permitia que entrassem.
A pergunta que ninguém faz
O debate público sobre bets se organizou em torno de duas perguntas: quanto o Estado arrecada e como proteger o apostador vulnerável. As duas são legítimas. Nenhuma das duas é a principal.
A pergunta que importa é o que R$ 62,5 bilhões deixaram de fazer na economia real. Esse valor é maior que o orçamento anual de vários ministérios. Saiu da conta de famílias, em boa parte de baixa renda, e foi para o resultado de empresas cuja atividade não produz bem nem serviço.
Não é uma transferência neutra. É consumo que virou perda, e perda que aparece depois no inadimplemento do cartão, na conta de luz atrasada, na dívida do consignado.
Quem defende o setor argumenta que se trata de escolha individual, e o argumento tem peso. Adulto capaz decide o que faz com o próprio dinheiro, e proibir empurra a atividade para o mercado ilegal, onde não há regra nenhuma. As duas operações desta semana mostram, aliás, que o mercado ilegal segue vivo mesmo com o legal aberto.
Mas escolha individual pressupõe informação e simetria. Não há simetria entre um algoritmo calibrado para maximizar tempo de tela e um apostador de 25 anos com o aplicativo aberto no ônibus.
O que caberia fazer
Não é proibir. É cobrar da regulação aquilo que ela prometeu: fiscalização com dente, punição rápida a plataforma que trava saque, transparência sobre a taxa de retorno ao apostador e restrição real de publicidade dirigida a jovem.
E é medir. O Comsefaz produziu o número porque nenhuma autoridade federal o produzia com essa clareza. A Secretaria de Prêmios e Apostas deveria publicar, todo trimestre, quanto entrou, quanto voltou em prêmio e quanto ficou.
Enquanto o dado depender de um comitê de secretários estaduais, a resposta óbvia continuará valendo: o setor foi regulado para arrecadar, não para proteger.