Brasil

Apostadores endividados por bets procuram o SUS e grupos de apoio

Relatos colhidos em Caps do DF e no Hospital das Clínicas descrevem perdas de R$ 100 mil a mais de R$ 200 mil

Apostadores endividados por sites de apostas esportivas passaram a procurar a rede pública de saúde e grupos de apoio em busca de tratamento, segundo levantamento de casos publicado pela Agência Brasil em 23 de agosto. Os relatos partem de pacientes atendidos em Centros de Atenção Psicossocial (Caps) do Distrito Federal e no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

As perdas descritas pelos pacientes variam de R$ 100 mil a mais de R$ 200 mil. Um deles, de 42 anos, acumulou dívida acima de R$ 200 mil e passou a tomar três medicamentos por dia. Descreveu a dependência como pior do que a que teve no passado com álcool e outras drogas.

A porta de entrada é o celular

A psicóloga Claudia Feres, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, resume o que mudou na dinâmica do jogo problemático.

"Aliado agora à tecnologia e a esse mundo das telas, a pessoa tem um cassino na palma da mão", afirmou.

Segundo ela, parte dos pacientes começa pelos jogos por desinformação, sem entender a mecânica de perda embutida no produto. Nos Caps, disse, há quem chegue com pedido de socorro desesperado, depois de perder também o respeito das pessoas ao redor.

A psiquiatra Katia Branco, do Hospital das Clínicas da USP, relatou aumento da procura no ambulatório e em outros serviços. O Grupo Pro-Amiti, ligado ao hospital, trata transtorno de controle de impulso e recebe parte desses pacientes.

Quem aposta e quanto perde

Um pedreiro autônomo de 26 anos contou ter perdido mais de R$ 100 mil e descreveu madrugadas inteiras apostando, com sintomas que associou à abstinência. Disse não se considerar viciado porque não precisou vender bens.

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que segundo a reportagem representa 75% do mercado brasileiro do setor, afirma que as apostas devem ser tratadas sempre como forma de entretenimento e reconhece que o jogo problemático é uma questão séria. O instituto diz defender medidas de proteção a crianças e adolescentes.

Onde o paciente é atendido

O tratamento corre na Rede de Atenção Psicossocial do SUS. Os Centros de Atenção Psicossocial foram estruturados a partir da Lei 10.216, de 2001, que reorientou o modelo de assistência em saúde mental no país e substituiu a internação como resposta padrão pelo acompanhamento em serviço aberto e comunitário.

A porta de entrada é a unidade básica de saúde, que faz o encaminhamento ao Caps de referência do território. O atendimento inclui equipe multidisciplinar, com psiquiatra, psicólogo, assistente social e terapeuta ocupacional, e não tem custo para o paciente.

O transtorno do jogo é reconhecido como diagnóstico pela Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, o que abre caminho para o tratamento na rede pública e para afastamento do trabalho quando há incapacidade.

O custo público de uma regulação recente

A regulamentação das apostas de quota fixa entrou em vigor no início de 2025, com autorização federal, exigência de licença e recolhimento de tributos. O tratamento de quem quebrou no caminho, porém, corre por conta do SUS, com equipes multidisciplinares em unidades de saúde e nos Caps.

Esse é o ponto que a discussão sobre bets costuma tratar de passagem. A arrecadação do setor aparece nas contas do governo. O gasto com atendimento psicossocial, o endividamento das famílias e a perda de renda de quem aposta não entram na mesma planilha.

No Congresso, tramitam propostas que vão da restrição à publicidade até a proibição integral do setor. O governo federal já publicou os processos de autorização das empresas que operam no país. Veja o que a Fazenda divulgou sobre a autorização das bets.

Quem procura ajuda pode buscar a unidade básica de saúde mais próxima, que faz o encaminhamento ao Caps de referência. O atendimento é gratuito.

2 visualizações