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Justiça da Bolívia nega sigilo em caso de atentado contra advogada

Presidente do Tribunal Supremo determina que processo sobre o ataque a Nadia Beller corra sem segredo; conselheiro de Rodrigo Paz está preso

O presidente do Tribunal Supremo de Justiça da Bolívia, Rómer Saucedo, determinou que o processo sobre o atentado a tiros contra a advogada e ativista Nadia Beller, 33 anos, não corra em sigilo. A decisão atende a pedido da própria vítima, baleada em 17 de agosto na calçada diante de um hotel em Santa Cruz de la Sierra.

Beller foi atingida por ao menos três tiros, um na região do pescoço, outro no tórax e um terceiro no braço direito. Segundo o relato do caso, dois motociclistas não identificados se aproximaram e efetuaram vários disparos à queima-roupa. As informações foram divulgadas pela Agência Brasil em 20 de agosto.

Saucedo detalhou a instrução dada ao juiz responsável.

"Em resposta ao pedido da vítima e amiga, que pede que o caso não seja declarado sigiloso, instruí ao juiz da causa que não declare o processo confidencial, para que ela possa ter acesso a todas as informações e para que lhe sejam fornecidas todas as garantias necessárias"

Quem está preso

O principal detido é o argentino Fernando Cerimedo, 45 anos, conselheiro do presidente boliviano Rodrigo Paz. Ele foi preso em 18 de agosto no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra. A imputação formal contra ele é de tentativa de feminicídio, e há investigação aberta de ofício por suposto enriquecimento ilícito, conforme apurou o site Infobae em 21 de agosto.

A polícia boliviana também prendeu outros dois suspeitos, um homem e uma mulher, cujos nomes não foram divulgados pelas autoridades. O fiscal-geral do Estado, Roger Mariaca Montenegro, indicou que a apuração não se encerra nos executores.

"Não esqueçamos que, assim como existiriam autores materiais, também podem existir outros autores intelectuais que podem estar envolvidos ou ter participação neste fato"

A prisão de Cerimedo ocorreu quando ele se preparava para embarcar em voo com destino à Argentina, no dia seguinte ao ataque. Em busca realizada na residência dele, segundo a apuração divulgada, as autoridades encontraram dinheiro, um veículo oficial, um telefone via satélite e cartões de visita com o selo da Presidência.

O que dizem os dois lados

Beller responsabilizou publicamente o conselheiro presidencial pelo ataque e disse, em declaração reproduzida pelo Infobae, que "aqui não governa Rodrigo Paz, governa Fernando Cerimedo". Em relato à imprensa, ela descreveu a conversa que teve com ele antes de ir ao hotel.

"Ele me disse: 'Ah, sim, eu soube desse caso'. E como, anteriormente, eu tinha dito a ele que estava receosa, ele me disse que não ia acontecer nada porque não tinha lógica tentarem algo em um hotel com câmeras à vista de todos. Ele apoiou minha ida e mentiu ao dizer que me mandou escoltas"

A decisão de manter o processo aberto tem efeito prático imediato: dá à vítima acesso às peças da investigação enquanto ela corre. Saucedo afirmou ainda que orientou o juiz a responder de imediato aos requerimentos do Ministério Público, a qualquer hora do dia, e a emitir sem demora as ordens judiciais solicitadas pelos promotores.

O governo boliviano respondeu pelo porta-voz presidencial José Luis Gálvez, que afirmou: "Não temos absolutamente nada a esconder". O Executivo não anunciou afastamento formal do conselheiro até a publicação desta reportagem. A defesa de Cerimedo não havia divulgado manifestação pública sobre a imputação.

O caso alcança a política dos dois países. Cerimedo é descrito pela imprensa argentina como ex-assessor do presidente Javier Milei, que em agosto anunciou nova etapa de abertura comercial no Council of the Americas. Na Bolívia, ele passou a atuar como conselheiro de Rodrigo Paz, que assumiu a Presidência em novembro de 2025.

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