Lula busca Trump como contrapeso a Rubio, diz o Financial Times
Jornal britânico afirma que o Planalto tenta um canal direto com o presidente americano para contornar a linha do Departamento de Estado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem buscado o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como contrapeso ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, na crise diplomática entre os dois países. A informação é de reportagem do jornal britânico Financial Times publicada no sábado, 22.
Segundo o jornal, a estratégia consiste em explorar a diferença entre a diplomacia conduzida diretamente por Trump e a linha adotada pelo Departamento de Estado, comandado por Rubio. A reportagem se apoia em fontes do governo brasileiro, em diplomatas ouvidos em Brasília e em interlocutores em Washington, nenhum deles identificado nominalmente.
O que diz a reportagem
O Financial Times afirma que integrantes do Palácio do Planalto avaliam que existe na Casa Branca uma ala de perfil ideológico liderada pelo secretário de Estado, com um projeto próprio para a América Latina. A leitura, segundo o jornal, é que Trump seria um interlocutor mais pragmático do que a estrutura diplomática americana, e que a construção de uma relação pessoal entre os dois presidentes daria ao Brasil um canal paralelo ao Departamento de Estado.
O texto atribui a Lula a avaliação de que o secretário de Estado "faz coisas diferentes do que conversamos com Trump". A reportagem britânica foi reproduzida no Brasil pela CNN Brasil, pelo Correio Braziliense e pela Gazeta do Povo.
A publicação ocorreu um dia depois do telefonema entre Lula e Trump, na sexta-feira, 21. Naquela conversa, os dois trataram das tarifas americanas sobre produtos brasileiros, do combate ao crime organizado e dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio. O Resenhando publicou o conteúdo da ligação no mesmo dia, assim como a informação de que o petista sugeriu ao americano uma reunião informal com Xi Jinping e Vladimir Putin.
As trocas de acusações entre Lula e Rubio
A aproximação com Trump é descrita pelo jornal no contexto de um desgaste público entre o presidente brasileiro e o chefe da diplomacia americana. Em declarações recentes, Rubio acusou Lula de colocar "o próprio ego" à frente dos interesses do próprio povo. O presidente brasileiro respondeu chamando o secretário de "latino-americano frustrado" que "odeia o Brasil".
O pano de fundo da tensão é comercial. Os Estados Unidos aplicaram tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, e o governo brasileiro abriu processo de reciprocidade na Camex com base na Lei 15.122. Paralelamente, a negociação técnica seguiu por outro canal: o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, tem tratado do tarifaço com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
A atuação de Rubio na região não se restringe ao Brasil. Neste mês, o Departamento de Estado anunciou sanções ao Ministério da Construção de Cuba e a oito empresas ligadas ao governo cubano, medida que o próprio secretário apresentou como parte da política americana para a América Latina.
Os pontos que a reportagem sustenta:
- Lula vê em Trump um canal mais pragmático do que o Departamento de Estado e busca contato direto com o americano.
- Fontes do governo brasileiro apontam uma ala ideológica na Casa Branca liderada por Rubio.
- As críticas públicas entre Lula e o secretário de Estado escalaram nas últimas semanas.
- O relato foi publicado um dia depois do telefonema de 21 de agosto entre os dois presidentes.
Nem o Itamaraty nem o Departamento de Estado se manifestaram sobre o teor da reportagem nos textos publicados até esta segunda-feira, 24. As avaliações descritas pelo Financial Times são atribuídas a fontes anônimas dos dois governos, e não a comunicados oficiais.
A relação entre Brasília e Washington segue em disputa em duas frentes simultâneas: a comercial, na mesa de negociação sobre as tarifas, e a política, no atrito entre o presidente brasileiro e o secretário de Estado americano. Não há, até agora, encontro presencial marcado entre Lula e Trump.