Mundo

Cientistas usam tubarões para melhorar a previsão de furacões

Sensores acoplados aos animais medem temperatura, salinidade e profundidade e transmitem os dados por satélite em tempo real

Pesquisadores da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, estão usando tubarões como plataformas móveis de coleta de dados oceânicos para melhorar a previsão da intensidade de furacões. O projeto é conduzido pela Escola de Ciências Marinhas e Políticas da instituição e foi divulgado pela Agência Brasil em 8 de agosto.

O método consiste em acoplar pequenos dispositivos eletrônicos aos animais. Os sensores medem a condutividade elétrica da água, indicador de salinidade, além de temperatura e profundidade. Os dados são transmitidos por satélite em tempo real quando o animal se aproxima da superfície.

A escolha das espécies leva em conta esse comportamento. São monitorados tubarões que sobem com frequência à superfície, condição necessária para que o equipamento consiga enviar as informações coletadas.

O que os dados devem alimentar

O alvo dos pesquisadores é a chamada camada mista, faixa superior do oceano onde a água se mistura por ação do vento e das ondas.

"Estamos realmente mais interessados no conteúdo de calor da camada superior do oceano, conhecida como camada mista", afirmou o professor Aaron Carlisle, responsável pelo projeto.

A relação é direta: uma camada mista mais quente fornece mais energia a um ciclone tropical, o que se traduz em furacões mais intensos. As informações coletadas devem alimentar modelos oceanográficos, atmosféricos e climáticos usados na previsão desses fenômenos.

A instituição não divulgou o número de animais equipados com os sensores nem indicou artigo científico publicado com os resultados obtidos até agora.

Os equipamentos usados nesse tipo de monitoramento são fixados de forma a se desprender após determinado período, prática adotada para reduzir o impacto sobre o animal. Projetos semelhantes passam por comitês de ética em pesquisa antes de ir a campo.

A previsão da intensidade importa para a decisão de evacuação. Uma tempestade que ganha força nas horas finais antes de tocar o continente reduz a margem de tempo das autoridades locais para retirar moradores de áreas de risco, situação registrada em furacões recentes na costa do Golfo do México.

Dados oceanográficos de acesso aberto também interessam ao Brasil. O litoral brasileiro não recebe furacões com a frequência do Caribe, mas o comportamento térmico do Atlântico influencia o regime de chuvas no Nordeste e no Sudeste, acompanhado por centros nacionais de previsão.

A lacuna que o projeto tenta cobrir

A previsão da trajetória de furacões avançou nas últimas décadas com o uso de satélites e de aeronaves de reconhecimento. A antecipação da intensidade, porém, continua sendo o ponto mais frágil dos modelos, e depende de dados sobre o que acontece abaixo da superfície do mar.

Boias fixas e planadores submarinos já cumprem parte dessa função, mas cobrem áreas limitadas e têm custo elevado de operação e manutenção. Animais marinhos percorrem grandes distâncias por conta própria e alcançam regiões onde há pouca medição disponível.

O uso de fauna marinha como plataforma de coleta não é novo. Focas e elefantes-marinhos vêm sendo equipados com sensores em projetos de monitoramento polar, com dados incorporados a bases oceanográficas internacionais.

A temporada de furacões no Atlântico Norte vai de junho a novembro, período em que a costa americana e o Caribe concentram os eventos de maior intensidade.

4 visualizações