Europa enfrenta a quarta onda de calor do verão, aponta a OMM
Reino Unido registrou o dia mais quente do ano, França e Suíça emitiram alertas para temperaturas acima de 35°C e a seca amplia o risco de incêndio
A Europa enfrenta a quarta onda de calor deste verão, com alertas meteorológicos acionados em França, Suíça e Reino Unido e seca prolongada em parte do continente. A avaliação é da Organização Meteorológica Mundial, agência das Nações Unidas, divulgada na terça-feira, 11 de agosto. O Reino Unido registrou nesta sexta-feira, 14, o dia mais quente do ano.
A agência meteorológica da França emitiu alerta para temperaturas extremamente altas, com marcas acima de 35°C em várias regiões. A agência suíça acionou alerta de nível 3 pelo mesmo motivo. No Reino Unido, o Met Office projetou até 36°C no sul da Inglaterra. O episódio atinge ainda Áustria, Hungria, Eslováquia, Espanha e Itália.
"As altas temperaturas resultam de uma combinação entre aquecimento de longo prazo com a incidência de sistemas de alta pressão no Hemisfério Norte", afirmou John Kennedy, chefe da divisão de informações climáticas da OMM.
Segundo a organização, a Europa Ocidental fechou o período de junho e julho com temperatura média do ar em superfície 1,47°C acima do valor de referência usado na comparação histórica. O calor extremo também atingiu Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Canadá no mesmo intervalo.
O efeito em energia e lavoura
Onda de calor combinada com estiagem produz dois impactos econômicos imediatos. O primeiro é o pico de consumo de eletricidade: a demanda por refrigeração sobe justamente quando a geração hidrelétrica e o resfriamento de usinas térmicas e nucleares dependem de rios com nível reduzido. O segundo é a lavoura, em que a falta de água na fase de enchimento de grão derruba a produtividade da safra de verão e pressiona o preço do cereal e da ração animal.
A navegação fluvial entra na conta em seguida. Rios usados para escoar carga a granel na Europa Central operam com restrição de calado quando o nível cai, o que encarece o frete e transfere volume para o modal rodoviário.
A seca prolongada aumenta ainda a carga de combustível disponível para incêndios florestais. No Reino Unido, o calor desta semana veio acompanhado de focos de incêndio em áreas de vegetação seca.
O que a OMM classifica como onda de calor
Não existe limite universal de temperatura para a definição. Cada serviço meteorológico nacional fixa o próprio critério, que combina temperatura máxima, temperatura mínima noturna e número de dias consecutivos acima do padrão da região. É por isso que o mesmo episódio recebe alerta vermelho em um país e alerta laranja no vizinho.
A noite tem peso maior do que o pico da tarde no risco à saúde. Quando a temperatura mínima não cai o suficiente, o organismo não recupera a capacidade de dissipar calor, e a sobrecarga se acumula em idosos, crianças e portadores de doença crônica. Os serviços de saúde europeus organizam os planos de contingência em torno desse indicador.
O mecanismo descrito pela OMM é conhecido dos meteorologistas. Um sistema de alta pressão estacionado sobre o continente funciona como tampa: comprime o ar, impede a formação de nuvem e bloqueia a entrada de frentes frias. Sem cobertura de nuvem, a radiação solar aquece o solo dia após dia, e cada dia parte de uma base mais alta que a do anterior. O episódio só termina quando a circulação atmosférica se reorganiza e desloca o bloqueio.
É esse encadeamento que explica a sequência de quatro ondas de calor em um único verão, e não quatro eventos isolados. O padrão se repete enquanto a configuração de pressão persistir sobre a mesma região.
A OMM não divulgou balanço consolidado de mortes atribuídas ao episódio atual. Números desse tipo costumam sair semanas depois, quando os institutos nacionais de estatística comparam a mortalidade registrada com a média esperada para o período.
Eventos climáticos severos também mobilizam orçamento público no Brasil, onde o Congresso analisou em agosto crédito destinado a ações de resposta a desastres.