Mundo

Trump se reúne com Connolly e Martin sob protesto de 10 mil em Dublin

Visita informal de dois dias a Irlanda inclui reuniao no Aras an Uachtarain e ida ao Aberto de golfe em Doonbeg

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reuniu-se neste sábado, 12, em Dublin, com a presidenta da Irlanda, Catherine Connolly, e com o primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, no primeiro dia de uma visita de dois dias ao país. Mais de 10 mil pessoas protestaram contra a passagem dele pela capital irlandesa.

O encontro com Connolly ocorreu no Áras an Uachtaráin, a residência presidencial no Phoenix Park, e durou cerca de 20 minutos. Em seguida, Trump teve reunião bilateral com o primeiro-ministro em Farmleigh House, também no parque, onde houve cerimônia de recepção.

À tarde, o presidente americano deixou Dublin em direção a Doonbeg, no oeste da Irlanda, para acompanhar o Aberto da Irlanda de golfe, disputado em um complexo de sua propriedade. A viagem foi classificada como informal pelas duas partes, e não como visita de Estado.

Durante a passagem por Dublin, Trump afirmou que gostaria de ver a ilha da Irlanda unificada e avaliou que isso deve ocorrer mais cedo ou mais tarde. A declaração toca um tema sensível na política irlandesa: a reunificação com a Irlanda do Norte, que integra o Reino Unido, é bandeira histórica do Sinn Féin e está prevista no Acordo da Sexta-Feira Santa, de 1998, mediante referendos dos dois lados da fronteira.

O que motivou o protesto

A manifestação partiu de cerca de 30 organizações civis e políticas, entre elas a Liga pela Neutralidade Irlandesa e o Movimento Irlandês contra a Guerra, sob o lema "Trump, você não é bem-vindo". Participaram também representantes do Partido Trabalhista irlandês, do Sinn Féin e do People Before Profit.

O eixo do ato foi a defesa da política tradicional de neutralidade militar da Irlanda, que mantém o país fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Parte dos manifestantes levou bandeiras palestinas e keffiyehs e acusou o presidente americano de cumplicidade com a ofensiva israelense em Gaza. Bonecos infláveis de Trump e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, circularam pelo trajeto.

Dirigentes da oposição irlandesa aproveitaram a data para criticar o governo de coalizão entre Fine Gael e Fianna Fáil, sob o argumento de que a aproximação com Washington aumenta a dependência externa do país. O governo irlandês não divulgou nota em resposta às críticas até a publicação desta reportagem.

Parte dos manifestantes pediu que o presidente americano seja levado a julgamento, e houve atos menores fora da capital. A marcha percorreu o centro de Dublin sem registro de confronto com a polícia divulgado pelas autoridades.

A segurança da visita mobilizou mais de 4 mil agentes em terra, mar e ar, com bloqueio de vias no centro de Dublin e controle de acesso ao Phoenix Park. É uma das maiores operações do tipo montadas no país para a passagem de um chefe de Estado estrangeiro.

A economia por trás da agenda

A Irlanda tem peso desproporcional à população na relação econômica com os Estados Unidos. O país abriga as sedes europeias de parte das grandes empresas americanas de tecnologia e de produtos farmacêuticos, atraídas historicamente pela alíquota reduzida de imposto sobre lucro corporativo.

Essa concentração torna Dublin especialmente exposta às políticas tarifária e tributária do governo americano, e o tema aparece em toda agenda bilateral recente. A visita deste sábado não teve anúncio de acordo comercial.

A relação entre os dois países também tem lastro histórico e eleitoral. A diáspora irlandesa é uma das maiores dos Estados Unidos, e presidentes americanos de diferentes partidos costumam visitar a ilha e reivindicar ascendência local, prática que se repete desde John Kennedy.

Trump mantém dois empreendimentos de golfe no Reino Unido, na Escócia, além do complexo irlandês em Doonbeg, no condado de Clare. A combinação de agenda oficial e passagem por propriedade própria já havia sido registrada em viagens anteriores dele à Europa.

O Resenhando acompanha o desdobramento da agenda externa do governo americano, incluindo o alinhamento do presidente argentino Javier Milei a Washington.

4 visualizações