Reino Unido oferece ajuda à Espanha diante da crise migratória em Ceuta
Itália ameaça suspender Schengen com os espanhóis e Alemanha cobra que Madri barre a passagem para o continente
O governo britânico ofereceu apoio às autoridades espanholas para enfrentar a entrada de milhares de migrantes vindos do Marrocos no enclave de Ceuta, no norte da África. O anúncio foi feito na sexta-feira, 31 de julho, pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, e divulgado pela agência Lusa a partir de Londres.
Segundo o governo autônomo de Ceuta, cerca de 60 mil migrantes irregulares chegaram ao território nos últimos dias. O enclave tem aproximadamente 80 mil habitantes, o que significa que o contingente que entrou equivale a três quartos da população local.
Esta é, obviamente, uma questão relevante da esfera do governo espanhol, mas causa preocupação. Estamos atualmente em contato com as autoridades espanholas para oferecer o nosso apoio, mas também para compreender melhor as implicações desta situação.
O primeiro-ministro britânico não especificou que tipo de ajuda foi oferecida. O número de mortos na travessia em massa registrada em 30 de julho subiu para 88 nesta segunda-feira, 3 de agosto, segundo as autoridades de Ceuta. O balanço anterior, divulgado no domingo pelo delegado do governo no enclave, Miguel Ángel Pérez Triano, era de 72.
A maior parte das vítimas morreu por afogamento nas proximidades do quebra-mar de Tarajal. Cerca de 3 mil agentes de segurança monitoram a fronteira e uma barreira flutuante de 500 metros foi instalada no quebra-mar para conter novas travessias. Aproximadamente 73,5 mil migrantes já retornaram ao Marrocos.
A reação dos governos europeus
A crise no enclave espanhol provocou manifestações de outros governos do continente, com tom mais duro que o britânico. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, colocou na mesa a suspensão da livre circulação com a Espanha.
Estamos reunindo as autoridades competentes e estamos prontos para agir, inclusive por meio de medidas excepcionais, como a suspensão do Espaço Schengen com Espanha.
O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, pediu que a Espanha não permita a entrada de migrantes irregulares no continente europeu. Já o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificou o episódio como um ataque e uma violação da integridade territorial do país, formulação que desloca a responsabilidade para o lado marroquino da fronteira.
Por que Ceuta concentra a pressão
Ceuta e Melilla são os dois territórios espanhóis situados no continente africano e, por isso, as únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e a África. Quem cruza a barreira desses enclaves entra em território formalmente europeu sem atravessar o Mediterrâneo, o que os transforma em ponto de pressão recorrente.
O controle desse fluxo depende, na prática, da cooperação policial marroquina. Episódios anteriores de entrada em massa nos dois enclaves coincidiram com momentos de tensão diplomática entre Madri e Rabat, e a contenção voltou a funcionar quando o impasse político foi resolvido.
A ameaça italiana de suspender Schengen com a Espanha atinge o núcleo do arranjo europeu de livre circulação. O código de fronteiras da União Europeia permite reintrodução temporária de controles internos em caso de ameaça grave à ordem pública ou à segurança interna, com prazo definido e notificação à Comissão Europeia.