Espanha contabiliza 72 mortes na travessia em massa para Ceuta
Delegado do governo no enclave atualizou o balanço; cerca de 60 mil pessoas entraram desde quinta-feira e a maioria voltou ao Marrocos em 48 horas
O delegado do governo espanhol em Ceuta, Miguel Ángel Pérez Triano, atualizou para 72 o número de pessoas mortas na travessia em massa para o enclave espanhol no norte da África. O balanço anterior era de 67 corpos recuperados, e o número atualizado foi divulgado no domingo (2), conforme publicou o Correio Braziliense.
Cerca de 60 mil pessoas entraram em Ceuta desde a quinta-feira (30), no maior fluxo já registrado na cidade. Mais de 48 mil retornaram ao Marrocos em 48 horas, de acordo com o balanço do governo espanhol reproduzido pela Agência Brasil.
A Guarda Civil instalou no sábado (1º), às 7h50 no horário local, uma barreira flutuante de 500 metros no quebra-mar da praia do Tarajal, ponto onde se concentrou a chegada por mar. A estrutura pneumática fica de 30 a 70 centímetros acima da água e se estende até um metro abaixo da superfície. O governo espanhol informou que a entrada de migrantes foi interrompida durante a noite.
O que diz Madri
Polícia e tropas espanholas patrulhavam as ruas de Ceuta no domingo, com embarcações infláveis monitorando as águas. O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, classificou como "egoísta" a reação de alguns países europeus à crise.
Um ministro do governo espanhol afirmou que o Marrocos "não representa qualquer ameaça para Ceuta ou para o resto da Espanha" e o descreveu como "um parceiro totalmente confiável", acrescentando não haver informação de inteligência que indicasse entrada massiva iminente. O governo marroquino não se manifestou sobre a crise até a publicação desta reportagem.
A versão oficial espanhola atribui a travessia à ação de grupos criminosos que difundiram boatos sobre uma suposta decisão do Supremo Tribunal espanhol que facilitaria a entrada. Analistas ouvidos pela imprensa internacional apontam outra hipótese, a de que Rabat teria tolerado o fluxo como instrumento de pressão diplomática.
Como fica a fronteira
Ceuta é um dos dois territórios espanhóis em solo africano, ao lado de Melilla, e faz fronteira terrestre com o Marrocos. É a única fronteira terrestre entre a União Europeia e o continente africano, o que a torna ponto recorrente de tentativas de entrada por terra e por mar.
O episódio recoloca em pauta o acordo migratório entre Madri e Rabat, que sustenta o controle da fronteira do lado marroquino, e o rateio de responsabilidades entre os países do bloco europeu. Espanha e Itália vêm cobrando dos demais membros participação maior na acolhida e no financiamento do controle das rotas do Mediterrâneo.
O número de mortos ainda pode mudar. As buscas continuam e o balanço é atualizado pela delegação do governo em Ceuta.