Diários de Fauci divulgados por Rand Paul citam vazamento de laboratório
Material com mais de mil páginas registra teleconferência de janeiro de 2020 em que cientistas discutiram acidente em Wuhan; Fauci invocou a Quinta Emenda em audiência no Senado
O senador republicano Rand Paul, do Kentucky, divulgou no fim de semana anterior a 27 de julho mais de mil páginas de diários, e-mails e anotações atribuídos ao imunologista Anthony Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (Niaid). Os registros são datados de dezembro de 2019 a dezembro de 2022, período em que Fauci comandou a resposta federal americana à pandemia de covid-19.
Paul publicou os arquivos na plataforma X, retirou o material do ar na segunda-feira seguinte e o republicou com tarjas de proteção de dados na terça-feira. "O que ele escreveu em particular e o que disse ao país são duas histórias diferentes", afirmou o senador ao divulgar os documentos. A divulgação ocorreu dias antes do depoimento de Fauci ao Senado, marcado para 29 de julho.
Na audiência, Fauci invocou a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garante o direito de não produzir prova contra si mesmo, e se recusou a responder aos questionamentos sobre decisões tomadas durante a pandemia. Nem ele nem seus representantes se manifestaram publicamente sobre o conteúdo dos diários depois da sessão.
O que os registros dizem sobre a origem do vírus
O trecho mais citado descreve uma teleconferência realizada em 31 de janeiro de 2020, na qual Fauci discutiu com pesquisadores a hipótese de acidente de laboratório. Segundo os registros, os cientistas estavam divididos entre a transmissão zoonótica e o vazamento em um laboratório de Wuhan, na China. Participantes teriam apontado que determinadas mutações do vírus "não poderiam ter ocorrido naturalmente".
Outras anotações tratam da comunicação pública durante a pandemia. Em julho de 2021, conforme o material, Fauci rejeitou conclusões do FBI que apontavam para a hipótese de vazamento em laboratório. Em maio do mesmo ano, ele havia defendido uma comunicação mais ativa do governo para evitar a percepção de "encobrimento".
A teleconferência de 31 de janeiro de 2020 já era conhecida de investigações anteriores do Congresso americano, que obtiveram e-mails do mesmo período por meio de pedidos de acesso à informação. O que os diários acrescentam é o registro pessoal de Fauci sobre aquelas conversas, escrito no mesmo dia dos fatos.
A hipótese de vazamento em laboratório foi tratada como marginal pela maior parte da comunidade científica nos primeiros meses da pandemia e ganhou tração institucional a partir de 2023, quando o Departamento de Energia e o FBI passaram a considerá-la a explicação mais provável, cada um com nível distinto de confiança. Nenhuma agência americana apresentou até hoje conclusão definitiva sobre a origem do vírus.
Um registro de agosto de 2022 descreve pressão de Fauci sobre os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) para que o órgão recuasse de uma declaração sobre a "ausência absoluta de eficácia das vacinas", sob o argumento de que a divulgação prejudicaria a campanha de imunização.
Como a disputa chegou ao Senado
Rand Paul é médico oftalmologista e crítico declarado de Fauci desde 2020. Os embates entre os dois em audiências do Senado se repetem há anos e giram em torno da origem da covid-19 e do financiamento americano a pesquisas com coronavírus na China.
Fauci dirigiu o Niaid por 38 anos, de 1984 a dezembro de 2022, e foi o rosto mais visível da resposta americana à pandemia. Depois de deixar o cargo, tornou-se alvo de investigações parlamentares conduzidas pela maioria republicana no Congresso.
A autenticidade e o contexto integral dos documentos não foram confirmados de forma independente por órgão oficial. As informações sobre o material foram divulgadas por veículos americanos, entre eles a rede pública NPR e a CBS News, e repercutidas no Brasil pelo Poder360 em 2 de agosto.
A comissão presidida por Paul não informou se convocará novas sessões sobre o tema.