Rússia e Coreia do Norte inauguram a primeira ponte rodoviária
Ligação sobre o rio Tumen recebeu o nome de Yakov Novichenko; por enquanto só passa carga, e a operação plena está prevista para o fim de 2026
Rússia e Coreia do Norte inauguraram na segunda-feira, 7, a primeira ponte rodoviária entre os dois países, sobre o rio Tumen, na fronteira entre o povoado russo de Khasan, no krai de Primorie, e Tumangang, na cidade norte-coreana de Rason. A obra recebeu o nome oficial de ponte Yakov Novichenko.
A cerimônia foi feita por videoconferência. Do lado russo participou o primeiro-ministro Mikhail Mishustin, de Moscou; do lado norte-coreano, o presidente do Gabinete de Ministros, Pak Thae-song, de Pyongyang. Estiveram presentes em Khasan o embaixador norte-coreano na Rússia, Sin Hong-chol, e os ministros russos dos Transportes, Andrei Nikitin, dos Recursos Naturais, Aleksandr Kozlov, e do Desenvolvimento do Extremo Oriente, Aleksei Chekunkov.
Até agora, apesar da fronteira comum, não havia tráfego rodoviário entre os dois países. A única ligação terrestre era a ponte da Amizade, ferroviária, construída em 1959.
O que diz o governo russo
Segundo comunicado publicado pelo governo da Rússia no dia da cerimônia, o conjunto tem quase 5 quilômetros com os acessos, e a ponte em si cerca de 1 quilômetro, com duas faixas de rolamento. A obra mobilizou mais de 70 pessoas e mais de 30 máquinas. O trecho russo tem 424 metros e o norte-coreano, 581 metros. O acordo para construir a ligação foi assinado em 2024, em Pyongyang, na presença de Vladimir Putin e de Kim Jong-un, e a obra começou em 30 de abril de 2025.
O posto de fronteira foi aberto por ato do governo russo de 27 de agosto. Em capacidade plena, comportará 300 veículos e 2.325 pessoas por dia, em dez faixas. Por enquanto, porém, só circula transporte de carga; a operação integral está prevista para o fim de 2026, sem data definida. A obra foi orçada em mais de 9 bilhões de rublos e executada pela construtora russa TunnelYuzhStroy, de Sochi.
Estou convencido de que a expansão da infraestrutura de transporte transfronteiriço dará um forte impulso ao desenvolvimento da cooperação comercial, econômica, científica, tecnológica e cultural
A frase é de Mishustin, em tradução da Agência Brasil. O primeiro-ministro russo disse ainda que as relações entre os dois países estão em nível sem paralelo de parceria estratégica abrangente e associou a homenagem do nome da ponte à atuação militar norte-coreana. No comunicado oficial, ele afirma que o gesto de Novichenko ecoa a coragem dos heróis coreanos que lutaram recentemente ombro a ombro com os combatentes russos e defenderam a terra russa. Novichenko foi o oficial do Exército Vermelho que, em 1946, cobriu com o corpo uma granada atirada contra Kim Il-sung.
A KCNA, agência estatal norte-coreana, afirmou que a ponte é garantia para reforçar infraestrutura importante de cooperação econômica entre os dois países e disse que a obra foi concluída em 495 dias. A TASS, agência estatal russa, registrou a travessia das primeiras colunas de veículos.
Como reagiram os vizinhos
A Coreia do Sul foi o único governo a se manifestar formalmente. Em nota divulgada em 8 de setembro, o Ministério da Unificação afirmou que a obra mostra o avanço da parceria estratégica abrangente entre Coreia do Norte e Rússia e amplia a infraestrutura para o intercâmbio de pessoas e bens. O ministério disse que acompanhará se o aumento do fluxo de mercadorias ocorre dentro das sanções vigentes.
Não houve manifestação oficial de Washington nem de Tóquio sobre a obra até esta quinta-feira (10).
Fora dos governos, a leitura é mais dura. O pesquisador Lim Eul-chul, da Universidade Kyungnam, disse ao Korea Herald que o novo corredor pode facilitar a movimentação de munição, suprimentos militares, trabalhadores e pessoal norte-coreanos para a Rússia, e que os laços econômicos com Moscou e Pequim vêm reduzindo o alcance prático das sanções. O grupo ucraniano de investigação Truth Hounds afirmou que a ponte pode servir de artéria direta para mover tropas, brigadas de construção e militares norte-coreanos para a Rússia, com tecnologia e recursos russos no sentido inverso.
A ponte em si não viola resolução do Conselho de Segurança. O que está sob restrição, pela Resolução 2.397, de 2017, é o que pode passar por ela, incluindo a exigência de repatriação de trabalhadores norte-coreanos no exterior. O painel de peritos que fiscalizava essas sanções foi extinto em abril de 2024, depois de veto russo, e em outubro daquele ano onze países criaram um grupo próprio de monitoramento, que já publicou dois relatórios sobre transferências de armas entre os dois países.
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