PIB da Argentina recua 0,6% no 2º trimestre e expõe limite da reeleição de Milei
Governo reduz projeção de crescimento de 5% para 3% e aprovação do presidente cai a 38%, segundo AtlasIntel
O Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina recuou 0,6% no segundo trimestre de 2026 na comparação com os três meses anteriores, primeira contração trimestral em dois anos, segundo dados do Instituto Nacional de Estadística y Censos (Indec) divulgados em 17 de setembro. O resultado atinge o presidente da Argentina Javier Milei a um ano do início da campanha pela reeleição, marcada para 2027.
Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o PIB argentino ainda cresceu 2%, e o primeiro semestre do ano acumula alta de 2,2%, segundo o Indec. Mas a leitura trimestral, a primeira negativa desde o fim de 2024, revela perda de fôlego da atividade depois de mais de um ano de recuperação sustentada pelo plano de ajuste fiscal de Milei.
Diante do resultado, o governo argentino reduziu a projeção oficial de crescimento para 2026 de 5% para 3%, segundo informou a equipe econômica na semana anterior à divulgação do dado, de acordo com a agência Bloomberg. Economistas consultados pela reportagem projetam expansão ainda menor, próxima de 2%.
O que puxou a queda
O tombo trimestral foi puxado pelo consumo privado, que caiu 2,4%, pelo gasto público, com recuo de 1,3%, e pela formação bruta de capital fixo, que recuou 0,8%, segundo o detalhamento do Indec. Na direção oposta, as exportações cresceram 2,5% no período, sustentadas pelo desempenho da pesca, da mineração e do agronegócio.
O mercado de trabalho formal também perdeu força. O setor privado fechou cerca de 46 mil vagas assalariadas no primeiro semestre de 2026 e acumula a destruição de mais de 246 mil postos de trabalho desde que Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, segundo levantamento da consultoria Invecq. Dados do Sistema Integrado Previsional Argentino, divulgados pela Secretaria de Trabalho do país, elevam a destruição total de empregos assalariados registrados a mais de 354 mil no mesmo período.
O dado do emprego se soma a outro indicador que já pressionava o governo: a pobreza na Argentina subiu a 32,3% no primeiro semestre de 2026, também segundo o Indec, apagando parte da queda registrada em 2025.
Como reage a opinião pública
A desaceleração da economia já aparece nas pesquisas de opinião. Levantamento da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, feito entre 30 de agosto e 3 de setembro, mostrou a aprovação de Milei em 38% e a desaprovação em 58%, uma diferença de 20 pontos percentuais. Segundo a mesma pesquisa, 52,7% dos entrevistados avaliam o governo como ruim ou muito ruim, enquanto 31,5% o classificam como ótimo ou bom.
O Palácio Rosado não comentou publicamente os números do PIB divulgados pelo Indec até a publicação desta reportagem. O governo argentino tem defendido que o ajuste fiscal, que zerou o déficit primário, é condição necessária para a retomada sustentada da economia, e atribui a desaceleração recente à incerteza eleitoral e ao custo de curto prazo do próprio ajuste.
Milei disputa a reeleição em 2027 depois de vencer as eleições legislativas de outubro de 2025, quando seu partido, La Libertad Avanza, ampliou a bancada no Congresso argentino. O resultado do PIB e a queda na aprovação, segundo a Bloomberg, testam a capacidade do governo de sustentar o apoio popular até lá sem abrir mão do ajuste que é a marca central de sua gestão.
Mesmo com a desaceleração, o governo argentino segue buscando atrair capital de longo prazo para setores estratégicos. Os Estados Unidos confirmaram neste ano financiamento de até US$ 7 bilhões para o corredor que liga a bacia de Vaca Muerta ao Atlântico, aposta do Palácio Rosado para sustentar a atividade econômica nos próximos anos, à medida que o efeito do ajuste fiscal sobre o consumo interno se esgota.