Irã diz que estava pronto para bombardear a Ucrânia e recuou
Conselheiro militar do líder supremo afirmou à Press TV que Teerã suspendeu ataque a três alvos ucranianos após Kiev alegar que o incidente no Mar Cáspio foi um erro
O Irã afirmou que estava pronto para bombardear três áreas na Ucrânia e desistiu da operação depois que Kiev alegou ter cometido um erro. A declaração é de Mohsen Rezaei, conselheiro militar do líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, em entrevista à emissora estatal Press TV divulgada na terça-feira, 4 de agosto.
"Estávamos prontos para atacar três áreas na Ucrânia. Mas, depois que alegaram ter sido um erro, suspendemos nossa resposta para analisar a alegação deles", disse Rezaei. O conselheiro acrescentou que "mesmo que tenha sido um erro, ainda exige compensação".
O que teria motivado a resposta
Segundo o relato iraniano, a retaliação estava sendo preparada por causa de um ataque contra um navio comercial de bandeira iraniana no Mar Cáspio, no fim de julho. Depois de um telefonema com autoridades ucranianas, o ministro das Relações Exteriores do Irã afirmou que Kiev classificou o episódio como não intencional, o que reduziu a tensão entre os dois países.
O Mar Cáspio é rota de escoamento comercial para o Irã e ponto de conexão com a Rússia e com a Ásia Central. Um ataque a embarcação civil nessa área alcança diretamente o comércio iraniano, submetido a sanções ocidentais e dependente de corredores alternativos.
A declaração não foi confirmada por outra fonte
O relato tem uma única origem identificada: a entrevista de Rezaei à Press TV, emissora estatal iraniana. Não há confirmação independente de que a operação tenha sido montada, nem manifestação pública do governo ucraniano sobre a acusação de ter atingido o navio.
Declarações desse tipo cumprem função dupla no repertório iraniano: sinalizam capacidade militar ao público interno e comunicam à outra parte que o incidente foi registrado, sem exigir a execução do ataque. O anúncio de uma retaliação suspensa é, nesse desenho, um instrumento de negociação.
Estávamos prontos para atacar três áreas na Ucrânia. Mas, depois que alegaram ter sido um erro, suspendemos nossa resposta para analisar a alegação deles.
Teerã também falou sobre os Estados Unidos
Na mesma entrevista, Rezaei afirmou que o Irã concentra esforços em negociações com Omã sobre o Estreito de Ormuz e que não negocia com os Estados Unidos. A fala responde de forma indireta à declaração do presidente americano, Donald Trump, sobre uma "última chance" de acordo com o país.
O Estreito de Ormuz é a passagem por onde circula parcela relevante do petróleo transportado por via marítima no mundo. Qualquer sinalização iraniana sobre a área tem efeito imediato na cotação internacional da commodity.
A relação entre Teerã e Kiev tem histórico tenso
Irã e Ucrânia acumulam contenciosos desde o início da guerra na Europa Oriental. Kiev acusa Teerã de fornecer drones usados pela Rússia em ataques a território ucraniano, acusação que o governo iraniano nega ter feito depois do início do conflito.
Há ainda um caso anterior não resolvido: a queda de um avião de passageiros ucraniano derrubado por engano pela defesa antiaérea iraniana nos arredores de Teerã, em janeiro de 2020, com 176 mortos. O episódio mantém pendências de indenização e responsabilização entre os dois países.
Esse acúmulo ajuda a explicar por que um incidente naval no Cáspio escala rapidamente para ameaça de bombardeio na retórica oficial iraniana, mesmo sem que a autoria do ataque tenha sido estabelecida publicamente.
Os pontos ainda em aberto
- Qual foi o navio atingido e em que circunstâncias.
- Se a Ucrânia reconhece formalmente autoria do ataque.
- Que compensação o Irã exige e por qual canal.
- Se houve comunicação sobre o caso a organismos internacionais.
Nenhum desses pontos foi esclarecido pelas partes até esta quarta-feira, 5. Enquanto isso não ocorre, o episódio permanece sustentado apenas na versão apresentada por Teerã.